Banco de Olhos em Londrina atende área com 2 milhões de habitantes
Unidade do HU é a única pública do Paraná e já alcançou a marca de 1.560 doações de córneas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de julho de 2019
Unidade do HU é a única pública do Paraná e já alcançou a marca de 1.560 doações de córneas
Ana Elisa Frings - Estagiária* 

O Banco de Olhos de Londrina, que funciona desde 2011 e é o único público do Paraná, alcançou recentemente a marca de 1.560 doações de córnea. Sediado no Hospital Universitário da UEL (Universidade Estadual de Londrina), a unidade atende pacientes de cinco regionais de saúde: Londrina (17ª), Apucarana (16ª), Cornélio Procópio (18ª), Jacarezinho (19ª) e Ivaiporã (22ª). Regiões que juntas abrigam perto de dois milhões de habitantes em 97 municípios. Recentemente, o banco londrinense passou a suprir também a demanda de Curitiba e região metropolitana, uma vez que a unidade da Capital está temporariamente sem funcionar. Outros dois bancos estão em Maringá (Noroeste) e Cascavel (Oeste).
Nos últimos seis meses, uma média de 55% das doações de córneas recebidas em Londrina beneficiaram pacientes das regionais atendidas pela unidade do HU. Os transplantes foram realizados em hospitais de Londrina e Apucarana. Outros 35% de córneas recebidas foram enviadas para Curitiba e 10% seguiram para as regiões Norte e Nordeste. Inicialmente, a córnea atende pacientes da região. Se não houver fila de espera, o tecido segue para outra região do Paraná e, depois, para outros estados. Como o serviço é parte do SUS (Sistema Único de Saúde) a fila atende sem distinção a pacientes da rede pública e rede privada.
As funções do Banco de Olhos incluem a busca de doadores, a entrevista com familiares de possíveis doadores, identificação do doador e todo o processo de retirada e transporte do tecido até a unidade, além de preservação e armazenamento do material. A avaliação e liberação ou não dos tecidos para o transplante é também responsabilidade da equipe técnica do banco.
Além da córnea, a esclera - conhecida como a parte branca do olho - pode ser aproveitada, explica a médica responsável pelo Banco de Olhos, Ana Paula Oguido. A esclera é utilizada para auxiliar em curativos e procedimentos terapêuticos em alguns pacientes. Por isso um doador de córnea e esclera pode beneficiar mais de uma pessoa que aguarda pelo tratamento. Após a retirada, a córnea tem validade máxima de seis horas e, depois de entrar no banco, o transplante deve acontecer em até 15 dias.
Ao serem doadas, as córneas e o histórico do doador são avaliados pelo Banco de Olhos antes que os tecidos sejam liberados para um transplante. Entre as impossibilidades de doação estão doenças como hepatites ou HIV, por exemplo, que são infecções transmissíveis. Não há limite de idade para pacientes doadores de córneas, mas estabeleceu-se o critério interno no HU de 70 anos como idade limite.

FILA DE ESPERA
“Hoje temos 57 pacientes esperando por córneas na regional de Londrina. No final do ano passado conseguimos zerar essa fila. No Paraná são 189 pessoas na fila e no Brasil todo perto de nove mil pessoas esperando um transplante de córnea”, informa Carlos Aparecido Oliveira, coordenador administrativo do Banco de Olhos de Londrina.
Para a médica, os números estão muito altos. “Se pensarmos que a córnea é um tecido privilegiado, por não depender de compatibilidade sanguínea com o transplantado, reduzir esses índices é bastante viável. O que falta mesmo é doação. É uma educação continuada que precisa existir na sociedade. Sem as campanhas estimuladas, geralmente as doações caem e o tema fica esquecido", lamenta Oguido. "Nosso papel aqui é muito importante e contamos com a sensibilidade do governo para manter essa estrutura."
'SERVIÇOS EM CURITIBA
SERÃO NORMALIZADOS'
A coordenadora da Central Estadual de Transplantes do Paraná , Arlene Terezinha Cagol Garcia Badoch, explica que o Banco de Olhos habilitado em Curitiba está passando por um processo de troca de gestão e em breve deve voltar a funcionar normalmente. "Está sendo finalizado esse processo de reorganização e esperamos que no máximo em dois meses os serviços estejam normalizados", explica.
Apesar de causar impacto nos outros bancos no estado, a coordenadora defende que a estrutura atual é suficiente. "Se no momento da captação for feito tudo corretamente, já é satisfatório. Os três bancos que temos estão também adequados para atender nosso estado. O mais importante é não faltar doações, esse sim é o principal impacto na fila de transplantes", afirma.
CURSOS DE
ENUCLEAÇÃO
O Banco de Olhos em Londrina realiza também cursos de enucleação para capacitar enfermeiros e médicos na retirada do tecido em pacientes falecidos. Há 9 anos o curso é oferecido e já formou uma rede de captadores que atuam nas 5 regionais de saúde atendidas pelo banco e colaboram para agilizar o procedimento.
"Ao descentralizar esse processo de retirada, conseguimos salvar doações. Se tivéssemos que enviar alguém daqui para uma cidade mais distante fazer a retirada, teríamos o risco de perder as 6 horas máximas na captação", informa o coordenador administrativo do Banco, Carlos Aparecido Oliveira.
A existência do curso de captação é a principal razão para o aumento nas doações a partir de 2015. De uma média de 11 doações por mês até 2014, a partir da atuação dos enucleadores treinados, as doações que chegavam ao Banco de Londrina subiram para uma média de 19 no mês. O curso é realizado em parceria com a OPO (Organização de procura de Órgãos) e a CET (Central Estadual de Transplantes).
RETOMANDO
A AUTONOMIA
Aparecido Frata, 48, foi submetido a transplantes de córneas nos dois olhos para corrigir um problema que afetava sua visão e o permitia enxergar apenas 10 cm à sua frente. O problema foi detectado em consulta no Hospital de Clínicas, no campus da UEL, com a médica Ana Paula Oguido. "Quando foi detectado o grau de evolução já era muito severo e eu enxergava quase nada. A doutora descobriu que era a deformidade marginal pelúcida e para corrigir eu precisaria do transplante de córnea."

A degeneração marginal pelúcida da córnea é um afinamento do segmento anterior da córnea, causando distorção da sua curvatura. Quando a doença está em estágio avançado a correção por óculos não é suficiente, por isso a indicação cirúrgica com transplante de uma nova córnea é necessária. A primeira cirurgia para transplante foi em 2017, no olho direito, e depois, em 2018, para corrigir o outro olho.
A perda da visão havia evoluído tanto que a rotina em casa foi afetada. "Eu sequer tomava banho ou penteava o cabelo sozinho. Os móveis em casa precisaram ser afastados e eu andava amparado no ombro da minha esposa. Dependia dela para as coisas mais simples do meu dia a dia. Agora estou retomando aos poucos a autonomia. Só não voltei a dirigir porque falta segurança, mas a qualidade de vida já melhorou muito."
A anestesia é local, o que torna o processo menos complexo que outros transplantes e a melhora na visão após a cirurgia é gradual. "No início parece que você está olhando para um espelho sujo, fica um pouco embaçada a vista, mas aos poucos a nitidez vai surgindo. Eu ainda vou precisar de óculos para corrigir o astigmatismo, mas não se compara à limitação física que eu estava enfrentando. Agradeço a equipe do Banco de Olhos que foi sempre muito prestativa e solucionou meu caso."


