O manobrista Enio César Gonçalves, que foi baleado numa desastrada abordagem policial na Cidade Industrial de Curitiba, disse em entrevista à Folha que foi pressionado para não denunciar o caso à imprensa. Enio prestou depoimento ontem à tarde no 13º Batalhão da PM onde está sendo conduzido o Inquérito Policial Militar (IPM) que apura as responsabilidades pelos acontecimentos registrados na madrugada do dia 3 deste mês. O manobrista e mais quatro pessoas que estavam num táxi voltando do trabalho foram confundidos com assaltantes.
Enio relatou que foi procurado por um policial militar no Hospital do Trabalhador, onde ficou internado. O manobrista não se lembra do nome do policial, que também teve participação na operação, mas revelou que ele admitiu que os PMs tinham errado durante a abordagem. Porém, teria dito que se Enio levasse os fatos ao conhecimento da imprensa, principalmente do deputado estadual Ricardo Chab (PTB), que apresenta o programa Grito da Cidade na TV Bandeirantes, a imagem da polícia poderia ficar ‘‘lá embaixo’’.
‘‘Falei para o policial que eu só queria Justiça e ele respondeu que isso ficaria na minha consciência’’, lembrou Enio. Desde que foi baleado no ombro esquerdo, o manobrista disse que ficou impossibilitado de trabalhar na Cooperativa Central de Alimentos do Paraná Ltda (Centralpar). A empresa concedeu ao funcionário uma licença por prazo indeterminado para que ele possa se recuperar das sequelas do tiro (a bala ainda permanece em seu ombro). O advogado da vítima, Jean Maurício de Silva Lobo, informou que além de uma ação de indenização por danos morais e físicos contra o Estado, vai exigir que os quatro policiais sejam expulsos da Polícia Militar.
Os dois policiais que iniciaram a abordagem pertenciam ao serviço reservado da Polícia Militar que é conhecido pela sigla P-2. O táxi que foi apanhar Enio e seus três colegas na Centralpar na madrugada do dia 3 foi perseguido pelos agentes que estavam num carro descaracterizado. Enio só lembra que os policiais chegaram atirando. A suspeita é de que o tiro que acertou o ombro do manobrista tenha sido disparado por outro policial militar que estava numa viatura oficial da PM que participou da perseguição. Mesmo ferido e rendido no chão, Enio afirmou ter sofrido chutes e tapas pelo corpo desferidos pelos policiais.
Aproximadamente 20 tiros foram contabilizados na lataria do táxi ocupado pelos trabalhadores da Centralpar. O taxista Ademir Morador, que também prestou depoimento ontem, disse que oito projéteis se alojaram no estepe do veículo. Ademir disse que embaixo do pneu reserva fica o tanque de combustível. Ele acredita que o intuito dos policiais era explodir o carro atirando no tanque. Ademir e o proprietário do táxi vão apresentar uma ação contra o Estado do Paraná na Justiça Cível, reivindicando reparação por danos materiais e morais. Na próxima sexta-feira será a vez dos quatro policiais militares prestarem depoimento no IPM.

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