Em meio a estradas de terra e moradias quase que ''escondidas'' entre as plantações, histórias de luta e conquista são preservadas em distritos e patrimônios de Londrina, por meio de pequenos estabelecimentos.
As ''vendas'', como são conhecidas, são um tipo de comércio peculiar em pequenas cidades e atuam como armazéns que em décadas passadas eram chamados de ''secos e molhados''. Ao longo de muitos anos, eles foram responsáveis por abastecer os poucos habitantes e viajantes que passavam por esses locais. Mas engana-se quem pensa que dessas vendinhas restaram apenas poeira.
A FOLHA percorreu os distritos de Irerê e Guaravera e o Patrimônio Espírito Santo, na Zona Sul de Londrina, e descobriu famílias que fazem questão de manter viva a história construída ao longo de décadas.
Caboclo
Ao chegar em Espírito Santo, a poucos quilômetros do Centro, a calmaria paira sobre a estrada de chão, cortada por uma única via de asfalto. Em uma esquina cercada por chácaras e plantações, uma casa com portas e janelas de madeira de peroba, pintadas de verde, são a prova que o tempo passou, e muito, por ali. São 53 anos de história.
Nas primeiras hora da manhã, Maria de Fátima Francisco, 43 anos, dá uma geral na limpeza na Venda do Alto, enquanto sua mãe, dona Izolina Maria de Jesus Francisco, 72, termina o café da manhã. Em poucos minutos ela chega com o sorriso aberto para receber a reportagem e logo corrige: ''ninguém conhece aqui como Venda do Alto. Para todo mundo, aqui é a Venda dos Preto''.
A história do local, frequentado não só pela vizinhança, mas por muitos viajantes, curiosos em conhecer a tão famosa venda, começa há muito tempo, quando as famílias ainda tinham que buscar água no rio e a renda era obtida através da venda de verduras, transportadas em carroças. ''Ela foi fundada por um caboclo e era no meio do mato alto. Com muita dedicação na roça, meu pai juntou um dinheirinho e a comprou'', lembra.
Durante um longo período, a venda foi mantida pelos tios de dona Izolina, que assumiu o comércio há cerca de 20 anos. Atrás do balcão, prateleiras de madeira são preenchidas por bebidas, enlatados, doces e outros alimentos. Uma mesa de sinuca e uma máquina que toca músicas são aquisições que garantem a diversão dos frequentadores.
Mas dona Izolina acredita que a preferência dos clientes se dá pela história do local e o bom humor que ela faz questão de preservar. ''Todo mundo gosta da gente. É atleta, bicicleteiro, jogador de truco, curioso e violeiro. Qualquer um que passa por aqui sempre volta, nem que se for pra conferir como estamos'', conta ela, que brinca ao dizer ''que fica até com cãimbra no braço de tanto acenar para as pessoas que passam pela estrada''.
Religiosa e muito batalhadora, dona Izolina, viúva há 20 anos, mãe de três filhos e cinco netos, encara como uma promessa ao pai manter a venda do jeito que está. Pensar em vender, ela diz que ''isso nunca'' e revela ter recebido várias ofertas. ''Não vendo e não empresto. Isso aqui virou história. É a minha vida e sou muito feliz'', afirma.
Cheio de vida
Das lembranças de infância, ela guarda com gratidão os ensinamentos do pai João Marques Neves, falecido aos 80 anos. Orgulhosa, ela conta que ele ''os fez trabalhadores'', se referindo também aos oito irmãos, três já falecidos. A família veio de Feira de Santana, na Bahia, em um pau-de-arara, em busca da fertilidade da terra vermelha. Da época, dona Izolina se lembra do Hotel dos Viajantes e o Bosque Central.
A fama da Venda dos Preto é tamanha que ela já viu passar inglês e espanhol pelo estabelecimento. ''Eu não entendia nada, mas sei que eles adoraram o lugar, pois aqui é cheio de vida. Todo mundo se conhece e não existe maldade'', garante.
E entre tantas brincadeiras e risadas, dona Izolina faz questão de dizer que só não é bem-vindo na Venda dos Preto palavra feia, coisa errada e bêbado que dá trabalho. ''Aqui é uma casa de família. Aqui tem respeito'', completa, com um sorriso aberto e um convite que ela deixa a todos: ''Volte sempre. Nós estamos te esperando''.

Confira mais imagens das vendas rurais:

Balcão, poeira e uma vida inteira
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