O educador físico Adair dos Santos participa de um bate-papo com os estudantes: "A maioria não percebe o risco"
O educador físico Adair dos Santos participa de um bate-papo com os estudantes: "A maioria não percebe o risco" | Foto: Fabio Alcover


Alunos da Escola Municipal Maria Irene Vicentini Theodoro, no jardim Califórnia, na zona leste de Londrina, foram surpreendidos com uma "balada" montada em pleno pátio da instituição. Na tenda organizada pelas professoras, havia música sertaneja, muitos doces espalhados em bandejas, decoração chamativa e sucos coloridos já em copinhos. A atividade, porém, não era alusiva a qualquer comemoração. Iniciativa do educador físico Adair dos Santos, do Nasf (Núcleo de Apoio à Saúde da Família), a "balada infantil" teve o objetivo de chamar a atenção para os riscos de aceitar bebidas, alimentos e outras substâncias oferecidas por desconhecidos.

A iniciativa é referente à semana de prevenção de álcool e outras drogas. "As campanhas sempre abordam o assunto em forma de palestra e com os alunos maiores. Desenvolvemos um formato para falar da prevenção do uso de álcool e drogas com os mais novos", explica Santos.

A dinâmica consiste em convidar os alunos a entrarem na tenda com música, decoração e as guloseimas. Em todas as turmas, apesar de ficarem ressabiadas no início, as crianças logo ficaram à vontade e passaram a se servir, mesmo sem saber direito o que tinha na bebida ou nos doces, servidos sem embalagem. Em uma das mesas, havia também um narguile, que pareceu natural à maioria dos "convidados".

Após 15 minutos de confraternização, Santos chama todos os presentes para um bate-papo e aborda o perigo de aceitar ofertas de estranhos. "Chamou a atenção porque alguns disseram que experimentariam álcool se fosse oferecido. A maioria também não tinha percebido o risco", comenta.

Outro assunto abordado foi a forma de dizer "não" caso lhes fossem oferecidos álcool, narguile ou outras drogas. "Houve crianças que inclusive já lidaram com essa situação", conta, destacando que as respostas foram bem criativas. O educador explicou também sobre o risco dos energéticos, muitas vezes apresentados como inofensivos mas que podem provocar problemas cardiovasculares. "Ouvi que alguns alunos tomam energéticos, apesar de não ser um refrigerante. Eles se espantam quando digo que a taurina, uma das substâncias da bebida, é retirada dos testículos do boi", relata.

A diretora da escola, Deise Macedo Reis Cavalcanti, explicou que há alunos que estão em uma realidade de fácil acesso a álcool e drogas, o que torna o debate ainda mais pertinente. "Teve um aluno de dez anos que até tentou fumar o narguilé. Eles contaram também que é comum por maconha e bebida alcoólica no lugar no fumo, ou seja, eles estão em contato com essa realidade", lamenta.

Flávia Manduca, do grupo de estudos Anistia pela vida, acompanhou a atividade e destacou a importância de abordar a integridade do ser humano desde a concepção até a morte natural com as crianças. "Muitas famílias ameaçam bater caso o filho experimente alguma substância, mas acreditamos que a conversa é mais importante", afirma, lembrando que o assunto está naturalizado entre as crianças, que nem sempre identificam os riscos.

Alunos que participaram da atividade só atentaram para o risco de aceitar ofertas de alimentos, bebidas e outras substâncias após a conversa sobre o assunto. "A balada estava muito divertida, tinha fogueira com luzes e música, peguei as comidas porque estamos na escola, não podia ser perigoso", conta Noemi Aline da Silva, 12, que já esteve em ambientes onde havia narguile, mas não ficou perto. "Quando percebi, fui embora para casa."

Liz Mendes, 10, ficou encantada pela decoração da "balada", mas preferiu dançar com os amigos antes de pegar os doces. "Sabia que não era perigoso porque estamos na escola, mas não sei se ia deixar de comer guloseimas se estivesse em outro lugar. A conversa foi boa porque agora aprendi que precisamos prestar atenção", opinou.

Giovani Gonçalves dos Santos, 10, conta que pensou em perguntar aos adultos se era permitido comer os doces, mas quando viu que todo mundo estava pegando, "entrou na onda". "Acho que a partir de hoje vou tomar mais cuidado", diz o garoto, que já foi advertido pelos pais a não ficar em ambientes com narguile.

O mesmo se passou com Gabriel Henrique Carvalho, 11, que não tinha certeza sobre a permissão para comer, mas acompanhou os amigos. "Esperei bastante tempo, mas depois achei que não ia ter problema", relata. O estudante admitiu que já foi avisado por adultos que não deve tomar decisões só porque outras pessoas estão fazendo o mesmo, mas não viu riscos em se servir das guloseimas porque estava na escola.

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