A bala perdida que feriu Daniela Aparecida Dias da Silva, 11 anos, na cabeça, durante troca de tiros entre policiais militares e marginais há seis dias, não atingiu apenas a menina. A tragédia afetou gravemente também toda a família, uma gente simples e que trabalha diuturnamente no pequeno sítio na Zona Norte de Londrina onde aconteceu o confronto. Até os três irmãos da garotinha, que estão na casa da avó materna, estão com medo de retornar ao local onde tudo aconteceu.
Os estampidos de tiros parecem ter feito o tempo parar na pequena propriedade para onde o casal de lavradores Claudemir Aparecido da Silva e Maria das Graças Dias da Silva, mais os quatro filhos, foram viver há cinco anos para tocar uma lavoura de café - única fonte de renda da família. ''O sítio era um lugar tão gostoso de morar, tão tranquilo'', lamentou Maria das Graças. O marido foi algumas vezes tratar dos animais mas logo já volta para o Hospital Infantil, onde a filha está internada.
Desde domingo, cães e porcos vagam perdidos pelo quintal, galinhas ciscam a esmo, filhotes de gato miam insistentemente. No cafezal, os grãos que caem se misturam à terra sem que ninguém os recolha. As frutas apodrecem no pé sem alimentar as crianças que cresciam livres como os passarinhos, protegidos pela aparente tranquilidade do lugar. O mato cresce rápido, alimentado pelo esquecimento.
As portas e janelas da pequena casa onde todos moravam permanecem lacradas quase todo o tempo. A bala também calou os risos, choros e as brincadeiras das crianças. Antes de serem lavados pela chuva, alguns cacos de telha marcavam o local onde a garotinha caiu, em frente à porta da sala. No quarto que ela dividia com os irmãos tudo permanece como antes da tragédia. Na sala da 4 série onde estudava na escola do Distrito da Warta a cadeira dela está vazia.
A família sabe que vai ser doloroso retornar ao cenário onde tudo aconteceu. ''Nem a minha filha menorzinha (de um ano e nove meses) quer voltar para lá. Quando a gente fala que vai para casa ela começa a chorar'', falou a mãe, completando que não tem condições nem de continuar amamentando a caçula da família.
Os dois maiores - uma adolescente de 14 e um menino de oito anos - também estão resistentes em retornar ao sítio. Todos estão vivendo na casa da mãe de Claudemir ''só com a roupa do corpo''. ''Para mim não está sendo tão difícil, mas para minha mulher e as crianças vai ser mais doloroso. Mas com o tempo acho que isso passa, até porque a gente não tem para onde ir'', comentou Claudemir, que ontem passou o dia tentando ajeitar as coisas no sítio para retomar a rotina.
Mas, por enquanto, a família não quer mais pensar em como serão as coisas daqui para frente. Querem mesmo é cuidar de Daniela e torcem para que a filha não fique com sequelas graves. ''Nossa vida está sendo no hospital. A gente só torce para que ela volte a ser aquela menina ativa, inteligente'', concluiu o pai.

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