Baixo salário afasta médico de posto
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quinta-feira, 24 de agosto de 2000
Betânia Rodrigues De Londrina 
Há mais de dois anos a prefeitura de Ibiporã (14 km a leste de Londrina) procura um pediatra para trabalhar no posto de saúde Eugênio Dal Molin, centro da cidade. Desde 98, os concursos para a vaga não atraem candidatos devido ao baixo salário. Segundo a chefe do Departamento de Recursos Humanos, Rosana Aparecida Borges, o município oferece R$ 850,00 por três horas e meia de trabalho diário, quase metade do valor pago em Londrina para o médico, que é de R$ 1.500,00 por 24 horas semanais. Em fevereiro, apenas um candidato se inscreveu para fazer a prova, mas não foi aprovado porque não tinha residência em pediatria, exemplificou Rosana.
O prefeito Antonio Nadir Bigati (PMDB) disse que não há condições de aumentar a remuneração por causa do plano de cargos e salários em vigor no município. Para atender os 12 postos de saúde, a prefeitura tem três pediatras, sendo que dois são apenas prestadores de serviço. Bigati concorda que é um número pequeno para atender a demanda, mas disse que a única opção é esperar que alguém se interesse pela vaga. Devido ao período eleitoral, nenhum município pode realizar concursos públicos antes de janeiro de 2001. Isso quer dizer que até lá a população de Ibiporã e alguns vizinhos de Uraí, Jataizinho e Sertanópolis vão dispor de um único pediatra no centro da cidade, o qual está de férias há 10 dias.
Débora Pires Macedo disse que nunca encontrou um pediatra no posto para atender o filho de nove meses. Sempre que precisei tive que aceitar um clínico geral. Uma vez cheguei a procurar o posto do conjunto Henrique Alves Pereira, mas nos bairros eles só atendem pacientes de fora em caso de urgência.
Cícero Sidnei Martins dos Santos está revoltado com essa situação. Na última quarta-feira, ele levou ao posto o filho de sete anos com 38 graus de febre e não conseguiu atendimento imediato. Eram 13 horas e eles queriam que eu esperasse até às 18 horas. Mas, além da urgência, eu tinha que estar no trabalho às 15 horas. Para resolver o problema, recorri ao Conselho Tutelar que me encaminhou ao hospital municipal.
Leonice Santos Batista e Rosineide Tibúrcio de Oliveira confirmam a versão dos outros pais. Ambas afirmaram ontem de manhã que o posto de saúde está sempre lotado e que uma única médica de clínica geral atende as crianças. Às vezes fico de duas a três horas até chegar no consultório, acrescentou Leonice.
Por causa disso muitas pessoas recorrem ao serviço médico municipal de Londrina. O Pronto-Atendimento Infantil (PAI) é um dos locais mais procurados, apesar de ser destinado exclusivamente aos moradores da cidade. De acordo com o diretor-clínico do posto, Jonilson Favareto, dos cerca de 300 pacientes atendidos diariamente, entre 6% e 7% são de outras cidades. Na verdade, acho que a porcentagem é bem maior, mas não há como identificar porque muitas pessoas dão endereços de Londrina com medo de não serem atendidas.
Favareto explica que o PAI sempre vai atender casos de urgência, porém quadros mais simples vindos de outros municípios são encaminhados para a Santa Casa, Hospital Universitário, Hospitais da Zona Norte e da Zona Sul. Para ele, o retorno constante dos pacientes de fora é o reflexo do comodismo dos prefeitos que não se esforçam para dar conta dos serviços básicos em suas cidades e sobrecarregam pólos como Londrina.
A enfermeira-chefe e supervisora do posto central de Ibiporã, Rosane Ribeiro, admite que o local precisa de, no mínimo, dois pediatras, mas nega prejuízo da população. Segundo ela, todas as crianças que chegam no posto são atendidas por um clínico geral e, em caso de necessidade, são encaminhadas aos bairros ou hospital municipal. Quando não há médico disponível ou quando a criança é muito nova e o caso não é resolvido pela enfermagem, encaminhamos imediatamente para um pediatra.
Para o prefeito de Ibiporã essas reclamações são fruto do período pré-eleitoral e devem continuar até as vésperas do pleito. Bigati é candidato à reeleição.


