Bairro se mobiliza por 7 horas para salvar um papagaio
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segunda-feira, 18 de agosto de 1997
Célia Baroni 
Londrina
Marcos BorgesOperação resgatePapagaio se debate na tentativa de se libertar das linhas de pipaSuspense, perigo e aventura marcaram o dia de ontem na zona leste. Preso a linhas de pipas, um papagaio passou mais de sete horas pendurado pela asa em uma peroba da mata do Marco Zero, da empresa Coimbra (extração de óleo), na Vila Fraternidade. A situação só não acabou em tragédia porque homens e animais se juntaram para salvar a vida do papagaio.
Enquanto, embaixo, bombeiros e guarda florestal amarravam cordas improvisando material para içar um homem até onde estava o papagaio, há cerca de 40 metros de altura, o animal se debatia e gritava na tentativa de se libertar das duas linhas - formando uma armadilha em forma de V - que o mantinham preso. Por volta das 11 horas, um imprevisto: gaviões, aproveitando-se da fragilidade do papagaio, quiserem inclui-lo no cardápio do almoço. Mas o parceiro do animal - um outro papagaio - enfrentou o ataque e protegeu o companheiro.
Marcos BorgesO bombeiro Paulo César desce com o animal preso ao puçáA guarda florestal foi alertada sobre o caso pelos moradores da Vila Fraternidade, vizinhos da mata, por volta das 8 horas. O casal de papagaios é conhecido dos moradores e, aparentemente, divide o espaço da mata com outro casal da mesma espécie. Os moradores acreditam que o casal de papagaios tenha ninho na peroba porque os dois sempre estão papagaiando por lá.
Eles apareceram há mais de um mês e a gente se acostumou com o barulho deles, principalmente a molecada, que vive soltando pipa e olhando para o céu, para o lado da mata, contou uma dona-de-casa que preferiu não se identificar. Ao todo, nove homens - três da Polícia Florestal e seis do Corpo de Bombeiros - participaram da operação.
Marcos BorgesJá no chão, o papagaio é retirado da rede, mas não se rendeA localização e a altura da peroba obrigaram a Polícia Florestal a pedir ajuda do Corpo de Bombeiros para o salvamento. Mas nem mesmo o equipamento dos bombeiros era adequado para escalar a peroba - que, só de tronco, tem cerca de 30 metros, equivalente a um prédio de 12 andares. A plataforma do carro dos bombeiros não dava angulação e nem atingia a altura dos primeiros galhos. Os cintos também não tinham diâmetro suficiente para abraçar a árvore.
Para garantir o salvamento, os bombeiros precisaram improvisar cintos usando cabos. O tenente do Corpo de Bombeiros, Pedro Dias Barbosa, comandou a operação e explicou que o número de homens garantiu a força necessária para içar um soldado até os galhos mais próximos. Nós trabalhamos para garantir o máximo de segurança ao homem que sobe, disse o tenente.
Marcos BorgesMais calmo, numa gaiola, o animal é aplaudido pela torcidaAmarrado a um cinto e cabos de segurança, o soldado Paulo César passou das 10 às 15 horas em cima da peroba, tentando encontrar a melhor posição para pegar o animal com a rede. A árvore era muito alta e os galhos mais próximos do animal não ofereciam segurança suficiente.
Quando os gaviões atacaram, Paulo César já estava no meio do caminho e acompanhou de perto a briga do parceiro do papagaio com os outros pássaros. Cheguei a pensar que os gaviões iriam conseguir derrotar o papagaio livre, disse. Mesmo avançando o máximo possível, o soldado conta que teve de cortar uma das linhas que prendiam o papagaio com ajuda de um bambu. A manobra fez com que o animal caísse o suficiente para ficar ao alcance do puçá (rede com formato cônico presa a um aro de madeira ou metal). Mas complicou ainda mais o resgate.
Marcos BorgesNo HV: ainda corre risco de vida devido ao dia estressanteCom uma das asas livres, e temendo o perigo da captura, o animal começou a se debater ainda mais. Por várias vezes o puçá envolveu o papagaio, levando a torcida - crianças e adultos que acompanhavam o resgate na mata - a aplaudir, antecipando o sucesso do salvamento. Mas os aplausos eram rapidamente substituídos por aaaahs de descontentamento. Mesmo preso à rede, o animal não se rendeu e manteve seu grito de protesto até, já no chão, ser colocado em uma gaiola.
A empresa Coimbra, proprietária da mata onde o papagaio foi resgatado, já solicitou que o animal volte para o Marco Zero. Desenvolvemos todo um trabalho de preservação da mata e de sua fauna e temos interesse em ver aumentar o número destes pássaros, disse o técnico de segurança no trabalho da empresa, Welligton Silva.


