Silvana Leão
‘‘Uma velha fazenda de café transformada no mais perfeito loteamento urbano do Brasil.’’ O anúncio de uma nova área residencial em Londrina, batizada de Jardim Shangri-lá, no início da década de 50, talvez seja um tanto exagerado. Uma coisa, porém, é certa: o bairro, localizado na zona oeste, já nasceu como um dos mais privilegiados em termos de infra-estrutura e planejamento urbanístico da história da cidade.
Idealizado por Lucílio de Held e Adelino Boralli, o Shangri-lá (mais tarde chamado de Shangri-lá A) compreende uma área de aproximadamente 64 alqueires. Os 2.124 lotes criados na antiga Fazenda Quati chamaram a atenção desde o início pelo critério utilizado no traçado. No memorial explicativo do loteamento, projetado em 1951, consta que o objetivo era violentar o terreno natural o menos possível. ‘‘Em todo o traçado, procurou-se adotar o partido de quadros longos que, a par de dar maior regularidade aos lotes resultantes, possibilitou fazer-se arruamento sem cruzamentos, que são, como se sabe, os fatores que propiciam o maior número de acidentes’’, diz o documento.
Assim nasceram os longos quarteirões, as ruas em curva e sempre bem arborizadas, que não raro caminham para um ponto em comum, encontrando-se no final. ‘‘O Shangri-lá foi a primeira resposta positiva à lei de loteamento nº 133, de 1951, que trouxe novidades inspiradas nos subúrbios-jardins da Inglaterra’’, lembra o arquiteto e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Humberto Yamaki.
Ele observa que ali as praças em formato de meia-lua, concebidas com a função de separar a área residencial da linha férrea (atualmente substituída pela Avenida Leste-Oeste), formam uma sequência rara de espaços públicos no município. Assim como a preocupação de facilitar o trânsito de pedestres, registrada na construção das muitas vielas presentes no bairro. O próprio Mercado Municipal, que ocupa uma quadra inteira em forma de cunha, é visto por Yamaki com uma característica especial do bairro.
O Mercado, concebido pelos próprios loteadores, serviu no princípio para exposições de maquinários agrícolas e flores. Durante alguns anos, uma ala inteira foi transformada em alojamento do 5º Batalhão da Polícia Militar. Aos poucos, o local foi ganhando o perfil de uma grande feira onde se vê de tudo, de frutas e verduras a comida pronta, artesanato, flores, roupas, presentes e até farmácia. E virou ponto de encontro de famílias das mais diversas regiões no domingo de manhã.
Os moradores mais antigos do bairro ainda lembram da época em que os principais vizinhos eram os terrenos baldios e os cafezais cercavam a região. ‘‘O ponto final dos ônibus da Grande Londrina era logo ali, no Sanatório Shangri-lá (hoje Clínica Psiquiátrica de Londrina)’’, lembra o agricultor João Delalíbera, que chegou na região com a mulher e os seis filhos em 1966, vindos da Gleba Jacutinga.
Morando até hoje na Rua Visconde de Mauá, ele conta que quando a família chegou, só havia três casas e um pequeno prédio - além do Mercado Municipal - nas redondezas. ‘‘Mas as ruas já eram asfaltadas’’, afirma, ressaltando que foi o primeiro bairro de Londrina a ganhar este tipo de pavimentação.
Delalíbera explica que a chamada zona A (acima da linha férrea), aprovada em 1952, demorou um pouco mais para se desenvolver porque ali só eram permitidas as construções em alvenaria. ‘‘A cada três anos vinha uma geada que acabava com os cafezais e deixava todo mundo sem dinheiro. Quando as casas estavam começando a ser erguidas novamente, vinha nova geada.’’ Já no Shangri-lá B, segundo ele, o desenvolvimento foi mais rápido, pois ali proliferavam-se as construções de madeira.
Ao lado da mulher Dirce, seu João reclama que quando se mudaram para o bairro, havia a promessa por parte da Prefeitura de manter a área como residencial, mas atualmente há muito comércio na região, o que acaba tirando parte da tranquilidade local. Depois de mais de 30 anos na mesma casa, o casal começa a cogitar a idéia de comprar um apartamento. Eles se justificam dizendo que, com o casamentos dos filhos, a casa ficou grande demais.


RAIO X
Shangri-lá A

Localização: entre as avenidas Leste-Oeste e Tiradentes
Data de aprovação dos lotes: 1951
Características: grandes quarteirões, ruas curvas e bem arborizadas
Ponto de referência: Mercado Municipal
População aproximada: 1.760 habitantes
Principal problema: alto índice de assaltosLongos quarteirões, ruas em curva e bem arborizadas são características do Shangri-la A, localizado na zona oeste de Londrina



TraçadoVielas construídas no bairro retratam a preocupação de facilitar o trânsito de pedestres; acima, reprodução de foto aérea do bairro: memorial explicativo do loteamento, projetado em 1951, consta que o objetivo era manter as características naturais do terrenoBons temposDelalíbera e a mulher, que chegaram ao bairro em 66: ruas asfaltadasPaulo WolfgangArquiteturaYamaki: loteamento inspirado nos subúrbios-jardins da Inglaterra

mockup