O início do ano é sempre uma época que faz as pessoas repensarem a vida. O balanço dos meses que se passaram reflete naturalmente nas resoluções para os dias que vêm pela frente. Para os moradores da Zona Oeste de Londrina, mais precisamente no Poligonal João Turquino e Maracanã (união dos dois bairros vizinhos), o lema ''Ano Novo Vida Nova'' começou a ser esboçado em 2001. Confuso? Não para quem já viveu sob o medo da violência desenfreada, e também com os transtornos nos dias de chuva, e hoje tem uma situação bem diferente.
Cansada, a comunidade resolveu se indignar com a situação e se mexeu. Escolheu um novo presidente da associação de bairro, que logo nos primeiros dias de mandato passou a recolher assinaturas pela região. O pedido era nobre: asfalto para todas as ruas. Aparecido Alves Júnior, presidente da Associação dos Bairros João Turquino e Maracanã desde setembro de 2003, lembra exatamente o número de assinaturas recolhidas: 1.422. Elas foram encaminhadas à Prefeitura. ''Só sai se a gente for atrás'', diz o presidente.
Em agosto de 2004, homens, caminhões e muito piche foram surgindo na vizinhança. Estava decretado o fim da terrível era do barro. Tinha início a tão esperada era do asfalto. O que pouca gente nos dois bairros sabia até então é que desde 2001 o município já se organizava para mudar a situação da região. Com a verba (dividida entre os governos federal e municipal) do projeto Habitar Brasil, por meio da Cohab Londrina, os moradores não só ganharam asfalto como também rede de esgoto, centro comunitário com quadra de esporte, posto de saúde e um centro de trabalho e renda. Como uma notícia boa acompanha mesmo outra, os muitos barracos de madeira que tomavam conta da paisagem foram substituídos por casas de alvenaria.
Na primeira fase, quase 300 casas foram construídas. Mas o sorriso largo no rosto de muitos moradores também tem outra explicação. A diminuição dos casos de violência que nos sete anos anteriores desde a a implantação do João Turquino colocava o bairro entre os mais violentos da cidade. Em 2005, apenas um assassinato foi registrado no Maracanã. O João Turquino passou o ano inteiro sem ocorrências graves.
Segundo a Polícia Civil, assim como já havia acontecido no União da Vitória, a implantação de recursos reduziu também a criminalidade no João Turquino.
As jovens Daiane Cristina da Silva e Renata Aparecida de Souza viviam sob toque de recolher familiar. ''A gente tinha que estar em casa quando começasse a escurecer'', conta Daiane, lembrando que as duas seguiam as ordens rigorosas das mães, então apreensivas. E com razão, admitem as meninas. ''Tinha muito malandrinho por aqui'', lembra Renata, que agora pode se dar ao luxo de sentar à sombra de uma árvore para ler poesia quando bem entender.
Além do medo, as famílias também conviviam com a escuridão quando chegava a noite. ''Não tinha luz porque os meninos quebravam as lâmpadas das ruas'', relatam as duas amigas. Com a vizinhança clara e asfaltada, a dupla tem mais tranquilidade para ficar conversando na rua até um pouco mais tarde. Não fosse pelo problema no olho direito, Daiane conta que faria tudo para seguir a carreira de oftalmologista. Mas por enquanto sonha mesmo com a chegada de um curso supletivo no bairro. ''Não dá para ir até o Novo Bandeirantes. É muito longe'', conta.
Feliz com o asfalto que facilitou o acesso da clientela ao seu bar, Reginaldo Santana cuida com carinho daquilo que demorou tanto tempo para chegar. Quando tem uma folga e o movimento no bar diminui, ele pega uma vassoura e uma pá e sai à rua para limpar os arredores. ''O homem do canudo (diploma) não soube muito bem colocar a boca de lobo por aqui e estava entupindo'', conta Santana. Mesmo com a mudança de local, o comerciante se previne e retira todos os entulhos que estão por perto. ''As pessoas ainda não se acostumaram com o asfalto'', explica o comerciante.
Caprichoso, plantou árvores em frente ao bar. Logo elas darão sombra e ele, é claro, vai estar lá para usufruir. Isso porque houve uma época em que o comerciante pensou em se mudar com a família para Ibiporã. Apesar de nunca ter vivenciado uma situação violenta, ouvia histórias dramáticas de vizinhos comerciantes, que se viram mais de uma vez sob a mira de revólveres.
De acordo com Alves Júnior, o Poligonal abriga cerca de 5.000 pessoas. São mais de 1.200 famílias beneficiadas com as melhorias conquistadas. ''De um ano para cá melhorou 80%'', diz Reginaldo Santana. ''Mas ainda vai custar a apagar a imagem ruim. Antes vinha muita tevê e rádio fazer comentários ruins. Agora pararam de aparecer'', lembra o comerciante.

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