Alguém sabe onde fica a Vila Matsunaga? E a Vila Góis, Galvão ou Kawakami? Pois nem mesmo os moradores desses lugares sabem o nome que é dado ao que eles já se acostumaram a chamar de Vila Casoni. Na verdade, o bairro original - um dos primeiros a serem criados fora do traçado urbano de Londrina do início dos anos 30 -, não somaria mais que 10 pequenas quadras. Os demais loteamentos receberam o nome dado pelos donos das glebas. Mas a população não se acostumou e batizou tudo de Vila Casoni.
Casa de dona PiedadePara tentar dar uma ordem na casa, o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUL) está finalizando um estudo para formação de bairros em toda a cidade. Preliminarmente, na Vila Casoni já estão incluídos mais de 25 loteamentos (veja relação nesta página). O primeiro deles, no entanto, foi criado em 1936, movido pela necessidade. ‘‘Eu não tive outra saída se não lotear a gleba e vender. Não tinha dinheiro e ainda estava devendo para a Companhia de Terras’’, lembra Domingos Casoni, o fundador do bairro e filho de Jorge Casoni.
Aos 87 anos, Domingos Casoni mora hoje no Edifício Bosque, no centro, mas ainda mantém muitos amigos, uma rotina de visita à vila e tem bem vivo na memória os primeiros tempos de Londrina, onde chegou em 1936 com a mulher e um filho pequeno. Dois anos antes de vir para cá com a família, ele tinha visitado a região com o irmão e comprado 2,5 alqueires de terra. ‘‘Quando cheguei com a família, rocei só um pedaço para fazer uma casinha e me instalei. A mulher chorava todo o dia e pedia para voltar para Pirajú’’, lembra.
Sérgio de SouzaAs lágrimas de dona Zulmira sensibilizaram seo Domingos. Ele decidiu, então, vender tudo e voltar para o estado de São Paulo. ‘‘Só que ninguém queria comprar. Fui obrigado a lotear e vender os terrenos. O loteamento foi feito em quatro quadras. Quem fez o projeto para mim foi o engenheiro da Paraná Plantation Alexandre Rasgulaeff (responsável pelo planejamento de Londrina)’’.
A Vila Casoni tem tantas particularidades que foi e continua sendo objeto de vários estudos. O Inventário e Proteção do Acervo Cultural (IPAC), projeto da Universidade Estadual de Londrina, já publicou livretos sobre o bairro. Estudantes de graduação analisam o vida social dos moradores; arquitetos se esbaldam com a arquitetura do local.
O bairro ainda conserva as características do processo de ocupação do núcleo central de Londrina, com ruas estreitas e muitas casas de madeira construídas em lotes grandes. O professor e arquiteto Humberto Yamaki desenvolveu um trabalho, junto com outros docentes e estagiários da UEL, sobre o processo evolutivo da vila, que terminou de ganhar os contornos atuais nos anos 60.
Adelaide CantagaloVila Casoni tem particulares que causam interesse nos pesquisadoresEntre os aspectos importantes do bairro, Yamaki ressalta a não padronização dos recuos e a construção de várias casas no mesmo terreno. ‘‘Em vez de verticalizar eles horizontalizaram a ocupação e conseguiram manter as características do lugar’’. A coisa mais comum é ver no bairro várias casas construídas num mesmo terreno, onde moram famílias inteiras.
Numa dessas vilinhas mora a família de dona Maria Piedade Amaral. No terreno tem seis casas, onde residem dois filhos, três netos e, na casa principal, além dela, a irmã, um sobrinho e um filho, moram também uma neta com o filho em dois cômodos que foram divididos na parte da frente. Rosângela da Costa Medeiros nasceu na casa da avó Piedade e nunca saiu da Vila Casoni, onde também nasceram seus filhos e também a sua mãe.
Dona Piedade chegou na Vila Casoni com o marido, filhos e uma irmã, Cândida da Silva, há muitos anos. Dona Cândida conta que para ir até o centro era preciso abrir porteiras e atravessar lavouras. Dona Piedade relata que resolveu construir vários imóveis no terreno para deixar casas para os filhos.
A convivência entre os moradores da Casoni deixa saudades em quem se muda do bairro. O vigilante José Miranda foi para o bairro Aeroporto há 16 anos e até hoje não passa uma semana sem ir tomar cerveja com os amigos da Casoni. ‘‘Todo dia que folgo venho aqui. Faço uma via-sacra pelos bares da Rua Caraíbas’’. Um dos companheiros de cerveja de José é o comerciante Sérgio de Souza, que tem comércio na vila há 11 anos. ‘‘A convivência aqui é muito boa’’, assegura.
Até as crianças sentem falta quando os pais precisam se mudar. Anderson Martins teve que ir com os pais para a Avenida Tiradentes. Ainda não conseguiu se acostumar e volta todos os dias para brincar com os amigos. Ele ainda estuda na escola do bairro, à noite, e aproveita para passar as tardes na casa da tia.
Moradora da Casoni há mais de 50 anos, Adelaide Cantagalo Orsi acompanhou a evolução do bairro e atesta: ‘‘Antes, para ir ao centro, a gente tinha que passar por picadas no meio do mato ou no meio das plantações. Hoje só vou ao centro quando preciso comprar alguma coisa diferente, porque o resto tem tudo aqui’’.

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