Marcos NegriniFalta de lazerDurante o dia as crianças do bairro ficam pelas ruas e à noite vão para o centro da cidade pedir esmolas Criado há 12 anos por um projeto de desfavelamento, o conjunto Santa Felicidade, na zona Sul de Maringá, luta para eliminar o estigma de bairro associado à marginalidade. A prefeitura já lançou um projeto, envolvendo seis secretarias, para mudar o perfil do bairro.
A associação de moradores, por sua vez, quer formar um novo conjunto, com um novo nome. Também se fala em fundir o conjunto com outro bairro, o João de Barro. Tudo para melhorar a imagem do bairro - associado à marginalidade - e resgatar a dignidade dos moradores.
O conjunto sempre foi refúgio de famílias de baixa renda. Com o tempo, foi ocupado também por marginais. No começo, nem a polícia entrava. As ruas eram estreitas e não tinham pavimentação; a iluminação, deficiente. Muitos terrenos tinham mais de uma moradia. Quando virou refúgio de marginais, as ‘‘visitas’’ da polícia passaram a ser constantes. Em caso de furto ou assalto na cidade, policiais não tinham dúvida. Iam procurar os suspeitos no conjunto.
‘‘Isso acabou afugentando todo tipo de bandido daqui’’, afirma o presidente da Associação de Moradores, Atílio de Oliveira. As últimas administrações municipais também implantaram algumas melhorias no bairro, o que acabou melhorando seu aspecto. As melhorias também incentivaram os moradores a cuidar melhor de suas casas, varrer as calçadas, e evitar o acúmulo de lixo em terrenos baldios.
Para Oliveira, a pavimentação de todas as ruas do Santa Felicidade, no ano passado, marcou a transformação do bairro. Com asfalto na porta, veio também o transporte coletivo. A prefeitura construiu também uma escola com 2.500 metros quadrados, em um terreno de 23 mil metros, para atender todos os moradores, inclusive de conjuntos vizinhos.
Apesar das mudanças na infra-estrutura e nos hábitos dos moradores, o preconceito continuou rondando o Santa Felicidade, ainda visto no resto da cidade como um lugar ‘‘barra pesada’’.
Presidente da associação, secretários municipais e até empresários concordam que um morador do Santa Felicidade tem menos chances de conseguir emprego. ‘‘Mesmo que o trabalhador tem uma qualificação, dificilmente tem chances por morar aqui’’, afirma Oliveira.
Ele conta que muitos conseguem até se inscrever para alguns empregos, mas perdem a vaga quando informam o endereço. O problema maior ocorre com as empregadas domésticas. ‘‘As pessoas ficam sempre desconfiadas com os moradores por causa da origem do bairro, mas isso não existe mais’’, garante ele.
O problema afeta também a educação. A Escola Professora Benedita Lima, a principal do bairro, tem capacidade para atender 350 alunos por turno mas só tem 200 estudantes matriculados. É que os moradores da vizinhança também evitam o Santa Felicidade.
‘‘Queremos que os moradores dos bairros próximos estudem lá, mas vamos manter espaço disponível para os programas a serem desenvolvidos com toda a comunidade’’, diz a secretária de Educação, Maria Bernadete Sperandio Cremm.
O primeiro passo é montar uma estrutura para atender as crianças e adolescentes no turno e contra-turno. ‘‘Vamos tirar a ociosidade e iniciar a profissionalização dos moradores em idade escolar’’, explica a secretária. A idéia, segundo ela, não é promover mais assistencialismo no João de Barro e Santa Felicidade e sim dar oportunidade de realização e trabalho.
Praticamente sem áreas de lazer, o conjunto deve ganhar em breve uma quadra coberta para uso de toda a comunidade, no terreno da escola municipal. Hoje, a única opção para a prática de esportes é a quadra usada nas aulas de educação física.

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