Baiano tipo exportação
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quarta-feira, 16 de outubro de 2002
Benedito Teles<br> Equipe da Folha 
Santo Antonio da Platina O Baiano é uma daquelas figuras que nascem em meio a aridez do cotidiano e, quando menos se espera, brotam no coração. O estereótipo de pequeno, mirrado ou desnutrido não se encaixa nele, aliás, seu corpo esguio, alto e forte lembra mais um norueguês do que um brasileiro. Ombros largos, olhar vivo e sorriso fácil são alguns elementos que compõem o personagem. Um perfil avesso à caricatura de sandálias e chapéu de couro banalizada na região dos, como eles dizem, ''galegos''.
Em Jacarezinho, o Baiano, além da revolução genética, proporcionou também um motim cultural. Ele não joga capoeira, não compra discos de Axé e até agora não adquiriu uma rede. Natural de Caturama, na chapada Diamantina, acorda cedo e trabalha como o sol durante todo o dia. Trata de seu ofício como um pároco trata a igreja. Zeloso e dedicado, às vezes, se parece com um monge, distante de tudo e ao mesmo tempo embrenhado na missão de aprender e ensinar.
Tão logo apareceu por estas paragens se imaginou o maior furdunço, pois um bom baiano é arretado por convicção e avexado por imposição. Mas, chegou de repente sem atocaiar ou apoquentar ninguém. Para os que esperavam um sertanejo ouriçado com sua alpercata nos pés e um jerimum nas mãos houve um misto de decepção e surpresa. O herói do agreste não buliu com ninguém, ao contrário, adotou a porta e o leite quente do sul do País. O que se viu, então, foi o sertanejo, a pulso, arrochar o nó e passar no vestibular da faculdade para virar 'dotô'.
O Baiano cosmopolita não tem sotaque e fala um português clássico e cadenciado. Certa feita pediu a palavra e declamou, a plenos pulmões, obras de Rui Barbosa. Meio sem jeito, ainda recitou Castro Alves em tom de revolta e, depois da ironia de Gregório de Mattos, falou da tristeza de Augusto dos Anjos. Não torcia pela equipe do Vitória e nem para a do Bahia, na verdade, era santista de coração.
O Baiano encara o adjetivo pátrio como elogio e homenagem, mas só se irrita quando atribuem a miséria do Nordeste ao seu povo, assim como, atribuem a recessão econômica ao assalariado e a violência ao favelado. Sabe, como ninguém, que o rótulo simplifica e aliena. Sabe que a chaga não é acaso, nem tampouco, culpa do enfermo. Ele sempre diz que no fundo, todo o sertanejo, assalariado e favelado é, antes de tudo, um forte.


