Baiano do cachorro-quente revela os segredos da fama
Áureo Nogueira
Ele nasceu há 61 anos em Palmeira dos Índios, no Estado de Alagoas, e foi batizado como José Ventura da Silva. Mas todos o tratam por Baiano. É o Baiano do cachorro-quente do alto da Avenida Higienópolis (centro de Londrina). Instalado entre as ruas Pio XII e Piauí há quase 20 anos, é um dos mais tradicionais vendedores ambulantes de sanduíches da Cidade.
Aqui no Sul, quem fala com sotaque nordestino é baiano. Assim, mesmo tendo nascido nas Alagoas e viver no Sul desde rapazinho, sou baiano também, conta, com largo sorriso e dizendo que tem muito orgulho de ser alagoano. E faz questão enfatizar que não tem nada contra os baianos da Bahia. Muito pelo contrário.
No ponto da Higienópolis desde o início dos anos 80, Baiano assistiu à transformação da avenida e suas imediações: a subida dos arranha-céu, a transformação da área residencial para comercial, a mudança dos hábitos e costumes dos seus frequentadores. Assistiu, ainda, a muitas brigas e reconciliação de namorados, e até entre marmanjos embebedados. Muita coisa mudou. Mas o lanche preparado pelo Baiano continua o mesmo.
O baiano de Alagoas migrou com a família para o chamado Sul Maravilha (como os nordestinos e nortistas se referem aos estados próximos e abaixo do Trópico de Capricórnio) no início dos anos 50, quando tinha menos de 15 anos.
Inicialmente a família se instalou em Presidente Prudente (SP). Mas, logo depois mudou-se para Umuarama (Noroeste do Paraná), onde Baiano casou-se com a dona Maria Elias da Silva, com quem teve 5 filhos. Morou, ainda em Nova Olímpia (56 km a nordeste de Umuarama) e Assis Chateaubriand (72 km ao norte de Cascavel).
Chegou a Londrina em 74. Iniciou a atividade de vendedor ambulante de sanduíches nos antigos carrinhos do Au Au (empresa que monopolizava este mercado). Meses depois, foi transferido para Bauru (SP). No interior paulista, comprou um carrinho de cachorro-quente e virou dono do próprio negócio.
Retornou definitivamente para Londrina no final de 1980 e instalou o Lanches do Baiano no alto da Higienópolis, no lado direito de quem sobe a avenida. Algum tempo depois, mudou-se para a pista do outro lado. Já quiseram me tirar deste ponto. Mas daqui não saio. Daqui ninguém me tira, parafraseia, revelando satisfação com o local de trabalho.
Baiano não tem grandes pretensões. Está satisfeito com o que ganha para sobreviver. Foi basicamente com este trabalho que criei os meus cinco filhos e estou levando minha vidinha, enfatiza, contando orgulhosamente que todos os filhos têm profissão e o mais jovem é estudante universitário.
Mas admite que se tivesse condições financeiras, mudaria de ramo. Moro numa esquina do Conjunto Ilda Mandarino (zona norte) ideal para uma mercearia, revela o sonho. Mas iria precisar da ajuda de alguém, porque a minha matemática é muito ruim, justifica, resignado, a volta à realidade.
Apesar de conseguir levar a vidinha, o movimento de fregueses no ponto do Baiano caiu muito se considerado com os bons tempos. Ele revela que já chegou a vender mais de 200 lanches por noite, sendo o carrinho de cachorro-quente mais movimentado da Cidade. Mas hoje em dia, há ocasião que não chega a vender meia-dúzia de sanduíches. Quando chove e faz frio, principalmente no início da semana, o movimento cai demais. Já ocorreu de vender apenas 3 lanches numa noite dessas, conta.
Apesar da significativa redução da freguesia, Baiano acha que ainda faz o melhor sanduíche de Londrina. Perguntado sobre a diferença entre o seu lanche e o da concorrência, Baiano não faz rodeio e revela a receita. Além do pão, salsicha ou hambúrguer, utiliza bacon, frango, tomate e cebola. Como tempero, orégano, alho, molho de pimenta, ketchup, mostarda e maionese. Mas o segredo mesmo está no preparo da cebola com tomate, diz, sem revelar exatamente qual é o segredo.
Muito confiante no segredo do seu lanche, Baiano entende que a queda no movimento do seu ponto deve-se a vários fatores, como a mudança de hábitos, o aumento da concorrência e até à estabilidade econômica, que acabou provocando o desemprego.
Para o vendedor de cachorro-quente, a Avenida Higienópolis sofreu uma grande mudança nos últimos anos. Há alguns anos, as pessoas saíam de casa para passear e comer um lanche na Higienópolis. Agora, não. Elas preferem ir para o Shopping Catuaí, analisa, acrescentando que o desemprego também aumentou demais a concorrência. Muitos perderam o emprego e montaram um carrinho de cachorro-quente. Há ambulante de lanches por toda a cidade, até nos bairros mais afastados.
Baiano percebe ainda que o incremento verificado nos últimos anos no sistema de fornecimento de alimentos através do telefone também alterou o mercado ambulante de lanches. As pessoas não saem mais de casa para comer um sanduíche. Preferem ficar vendo televisão e fazer pedido pelo telefone.
Muita coisa mudou nos últimos anos. Mas o sanduíche preparado pelo Baiano continua o mesmo. Outra coisa que não mudou foi a Kombi que puxa seu trailler. É a mesma que adquiriu há quase 20 anos. E em 80 ela já tinha 10 anos de uso. Assim como o molho de cebola e tomate, a velha Kombi é uma marca do Baiano do cachorro-quente.
PERFIL
Nome: José Ventura da Silva
Apelido: Baiano
Local de nascimento: Palmeira dos Índios, Alagoas
Quando migrou para o Sul: Início dos anos 50
Sonho: Ter uma mercearia





