Babilônia moderna tem presidente e embaixador
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 1997
Curitiba 
Na Boca Maldita acontece de tudo. Os grupos se reúnem nas calçadas da Rua XV e repartem democraticamente o espaço físico com quem passa por ali. O que parece ser uma Babilônia moderna revela, quando observada de perto, um entrosamento perfeito, onde as conversas de políticos, profissionais liberais e aposentados dividem espaço com a exposição de quadros, o cafezinho, o jogo de palitinhos e o mágico de araque que ganha a vida apresentando seus truques.
Essa mistura é, para o presidente da confraria, Anfrísio Siqueira, a essência da Boca, que reflete nessa composição a opinião pública de Curitiba. Siqueira diz que esse caldeirão de idéias proporcionou o surgimento da campanha das Diretas Já e o nascimento político do governador Jaime Lerner, um produto da Boca Maldita.
Siqueira, aos 69 anos, gosta de marcar seu posicionamento sobre as mais diversas questões, preferindo ser franco a parecer politicamente correto. É vaidoso quando fala no que a Boca Maldita se transformou, e gosta de contar as polêmicas em que já se envolveu. Uma vez bateu de frente com o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, e desmentiu no programa Fantástico, da Rede Globo, uma afirmação de ACM de que a primeira tribuna livre do Brasil foi criada em Salvador pelo então governador da Bahia. No ar, Siqueira disse que Salvador podia até ter uma tribuna, mas que a primeira é a de Curitiba.
A Boca parece um país independente, com presidente e até embaixadores. Quem chega por lá acaba falando com José Bartolomeu de Souza, o Zequinha, que diz que a Boca já é um endereço. Recebemos cartas somente com o nosso nome, sem rua, número ou CEP. Vem escrito apenas Zequinha, Boca Maldita, diz o embaixador. (G.V.)


