Na Boca Maldita acontece de tudo. Os grupos se reúnem nas calçadas da Rua XV e repartem democraticamente o espaço físico com quem passa por ali. O que parece ser uma Babilônia moderna revela, quando observada de perto, um entrosamento perfeito, onde as conversas de políticos, profissionais liberais e aposentados dividem espaço com a exposição de quadros, o cafezinho, o jogo de palitinhos e o mágico de araque que ganha a vida apresentando seus truques.
Essa mistura é, para o presidente da confraria, Anfrísio Siqueira, a essência da Boca, que reflete nessa composição a opinião pública de Curitiba. Siqueira diz que esse caldeirão de idéias proporcionou o surgimento da campanha das Diretas Já e o nascimento político do governador Jaime Lerner, ‘‘um produto da Boca Maldita’’.
Siqueira, aos 69 anos, gosta de marcar seu posicionamento sobre as mais diversas questões, preferindo ser franco a parecer politicamente correto. É vaidoso quando fala no que a Boca Maldita se transformou, e gosta de contar as polêmicas em que já se envolveu. Uma vez bateu de frente com o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, e desmentiu no programa ‘‘Fantástico’’, da Rede Globo, uma afirmação de ACM de que ‘‘a primeira tribuna livre do Brasil foi criada em Salvador pelo então governador da Bahia’’. No ar, Siqueira disse que Salvador podia até ter uma tribuna, mas que a primeira é a de Curitiba.
A Boca parece um país independente, com presidente e até embaixadores. Quem chega por lá acaba falando com José Bartolomeu de Souza, o Zequinha, que diz que a Boca já é um endereço. ‘‘Recebemos cartas somente com o nosso nome, sem rua, número ou CEP. Vem escrito apenas Zequinha, Boca Maldita’’, diz o ‘embaixador’. (G.V.)

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