Azucena ensina espanhol e dá exemplo de luta
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de maio de 1999
Silvana Leão 
Início da década de 70. Os caminhos políticos do Uruguai começavam a se direcionar para a ditadura militar. A jovem Azucena Geymonat, que pouco tempo antes já havia morado um ano no Chile, toma a decisão que mudaria o rumo de sua vida. Deixando para trás família e a pequena cidade chamada Ombúes de Lavalle, ela resolve arriscar a sorte na capital da vizinha Argentina, onde passa a ganhar a vida dando aulas para crianças.
Quase 30 anos depois, uma das mais antigas professoras de espanhol de Londrina conta detalhes de um tempo recheado de bons acontecimentos, mas também de muitas dificuldades. Saí de casa para morar em Buenos Aires sem pensar muito, confessa, lembrando que na época o território argentino era um atrativo para os uruguaios. No seu caso, ela afirma que a principal motivação para abandonar a terra natal era a busca por aventura.
Acabou se deparando com aquele que seria o companheiro e pai de seus filhos, o brasileiro Herman Oberdiek. Os primeiros anos de casamento foram vividos ainda na Argentina, onde mais uma vez o fantasma da repressão apareceu na vida desta mulher. No ano de 76, justamente quando as coisas começavam a clarear no Brasil, o casal, animado pela liberdade de expressão aqui registrada e motivado pela presença de um casal de amigos em Londrina, decide-se pela mudança. O marido veio primeiro, para garantir emprego.
Um período difícil os aguardava, que começou com a própria viagem da família para o Brasil. De Buenos Aires, seguiram de avião para Puerto Iguazu, onde fizeram a travessia de barco para Foz do Iguaçu. Chegamos por volta do meio-dia na rodoviária e tivemos que esperar até de noite para tomarmos o ônibus para Londrina. O filho do meio do casal tinha apenas dois meses e Azucena ainda lembra a sensação que a dominou naquelas horas. Me senti uma bóia-fria, um sentimento de estar flutuando, no sentido de faltar o chão mesmo.
Paulo WolfgangPor muito tempo eu não me conformava com as relações entre patrões e empregadas domésticas. A sensação era a de que aqui ainda existia escravidãoO que viria pela frente seria igualmente difícil para a professora, que praticamente não falava e tinha dificuldade de entender o português. Ela conta que se deparou com uma realidade muito diferente daquela vivida no meio rural uruguaio e também na capital argentina. O capitalismo tão exposto, a superficialidade nos relacionamentos, a grande importância dada ao materialismo e ao consumismo causaram grande estranheza à nova moradora.
O modelo americano estava muito mais desenvolvido aqui. Azucena lembra que a miséria e os contrastes sociais, em grau mais acentuado do que estavam acostumados, também chamou a atenção. Por muito tempo eu não me conformava com as relações entre patrões e empregadas domésticas. A sensação era a de que aqui ainda existia escravidão, relata.
Os primeiros anos foram suportados com perseverança e uma boa dose de criatividade. Eu ficava em casa praticamente o tempo todo, cuidando das crianças. Depois de um tempo resolvi começar a fazer aula de ginástica com um grupo de mulheres. Um dia perguntei se alguma delas se propunha a me ajudar a aprender português. Passei, então, a frequentar a casa dela duas vezes por semana, levando os dois filhos pequenos, lembra.
Uma grande aliada de Azucena no processo de aprendizado da língua foi a Folha de Londrina. Ela conta que nas aulas na casa da amiga, sempre levava o jornal à tiracolo. Lá, as matérias eram lidas, comentadas e copiadas exaustivamente.
Bem-humorada, a professora lembra outro recurso utilizado na ânsia por novas amizades: Estranhei muito a superficialidade dos relacionamentos entre as pessoas. Por isso fiquei imaginando as pessoas que podiam ser mais sensíveis e se diferenciar das demais. Conhecendo o trabalho do maestro Benvenuto (Otônio Benvenuto), resolvi procurá-lo. Ela ri, revelando que mais tarde chegou a fazer um curso de ritmos e música brasileira direcionada à criança com o maestro e acabou se tornando grande amiga de sua mulher.
Nestas duas décadas de Londrina, Azucena Geymonat Oberdiek, dedicou-se, acima de tudo, a dar aulas. Montou um ateliê de expressão livre na própria casa, trabalhou em pré-escola, passou a dar aulas de espanhol no Colégio Estadual Marcelino Champagnat (onde está há 10 anos), formou-se em psicologia e, nos últimos anos, integra a equipe de professores do Corso Itália, escola de línguas.
Ela confessa que às vezes pensa que, a esta altura, teria direito de estar ganhando mais com as aulas de espanhol, mas até agora não conseguiu romper o vínculo com a escola pública. O professor é muito desvalorizado, mas ao mesmo tempo, são crianças que praticamente não têm outras oportunidades de aprimorar o conhecimento.
Assim, Azucena continua realizando seu trabalho, norteado por uma filosofia muito própria. Acho que a língua deve ser vista como algo além de seu aspecto utilitário. Sempre procurei trabalhar com pessoas que se interessam também pelos aspectos culturais dos outros países.
Apesar da saudade, ela confessa que a família nunca pensou mais seriamente em voltar para o Uruguai ou Argentina. A gente vai fazendo a nossa história em um lugar. Houve uma época que eu pensava que não queria morrer aqui, que esta terra não era a minha. Hoje eu já admito a idéia, confessa.
As formas de expressão artística acabaram sendo a válvula de escape para Azucena, que nas horas vagas procura extravasar suas emoções através da argila e de desenhos abstratos pintados com canetas ponta porosa. Hoje tenho vontade de descobrir mais coisas do Brasil, aspectos da cultura que têm ficado escondidos diante da massificação imposta pela mídia, afirma a professora.
Esta preocupação com o aspecto cultural faz a professora ter um carinho especial por Londrina que, segundo ela, é exatamente aquilo que sempre quis. Acho que a cidade, especialmente através dos festivais de teatro e música, oferece a oportunidade de vibrarmos com as criações artísticas e conhecermos alguns aspectos de outras culturas, diz, revelando também grande admiração pela paisagem regional. Aqui há uma exuberância escandolosa na natureza, principalmente se a compararmos com a uruguaia, que é de certa forma monótona.
PERFIL
Nome: Azucena Geymonat
Idade: 55 anos
Procedência: Uruguai
Profissão: professora de espanhol
Paixão: amor por Londrina


