Lino Ramos
De Londrina
Especial para a Folha
Que tal trocar uma geladeira por um carretel de linha. Ou então um prêmio valioso por um milhão? Essas imagens ainda brilham na mente de Aymoré Kley, 76 anos, o primeiro apresentador de programas de auditório na televisão londrinense, criador do Carrocel da Sorte e do Festival de Música Sertaneja, programa que foi ao ar até outubro de 1983.
Aymoré iniciou sua vida de artista na Rádio Londrina logo que chegou à região, vindo de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. O programa Carrocel da Sorte estreou em 1964, um ano após a inauguração da TV Coroados, quando Aymoré Kley já havia se aposentado no Banco do Brasil, onde trabalhou por 32 anos. Ele levou para a frente das câmeras a experiência artística adquirida no rádio. ‘‘Era um horário nobre, às oito da noite, com o patrocínio da Plenogás Fuganti’’, lembra.
Na infância, o gênio critivo de Aymoré já inventava microfones à base de carvão de pilha e tampas de leite. Na TV o artista construiu uma cabine à prova de som onde ficava o participante do Carrocel da Sorte. ‘‘Ele não ouvia e nem via nada e para ajudar eu ainda injetava uma música na cabine.’’
Tudo era ao vivo e o pequeno auditório acompanhava a série de perguntas que o apresentador dirigia ao candidato, que acendia uma luz para dizer sim e outra para o não. Assim aconteciam as cenas inesperadas que divertiam a platéia e o telespectador. ‘‘Certa vez um rapaz trocou uma geladeira por uma cheque frio. Antes eu havia deixado o cheque rasurado no congelador.’’
Outra brincadeira quase terminou na Justiça porque a mulher não gostou de ter sido premiada com um milhão. ‘‘Ela trocou um prêmio interessante por um milhão. Era um grande milho verde desenhado em cartolina por um funcionário das lojas Fuganti. Ao sair da cabine a mulher ficou furiosa e depois quis processar a firma patrocinadora.’’ Um conhecido de Aymoré dizia que quando o apresentador conversava muito o prêmio era bom. ‘‘Uma vez ele foi sorteado para participar e após um bom tempo saiu de lá com uma mamadeira.’’ O Carrocel da Sorte durou um ano. Kley lembra que após muito tempo o apresentador Sílvio Santos adotou um programa parecido, usando microfones no lugar das luzes.
Após cinco anos longe da telinha, Aymoré Kley retornou à TV em 1970 com um programa de música sertaneja, até então inédito nas televisões do interior do País. Kley lembra que o convite partiu do diretor da Televisão Coroados, Antonio Euclides Sapia: ‘‘Isso era uma loucura, a Globo chamava esse tipo de programa de subdesenvolvido. Relutei um pouco mas acabei aceitando o desafio’’, recorda.
As críticas vieram de todos os cantos mas aos poucos o sucesso do programa mostrou que Sapia enxergava à frente de seu tempo. Mas em 74, o grupo da TV Tibagi, que detinha o direito sobre as transmissões da Globo, acabou com a programação regional. Mais tarde, Aymoré recomeçou na TV Cultura de Maringá, mas no caminho esbarrou novamente com a programação rígida de uma rede nacional de TV. ‘‘Lá fizemos mais ou menos um ano e a Globo passou a comandar a TV’’.
A Tibagi, de Apucarana, que havia perdido o direito de ser retransmissora da Globo, acabou contratando Aymoré. ‘‘Eles que me chamaram de subdesenvolvido e me tiraram da Coroados. Depois me contrataram assim que ficaram sem a programação da Globo’’, comenta com um ar de vitória. Por último Aymoré foi para a TV Tropical, onde permaneceu até outubro de 1983. O ápice do programa ocorria em outubro com o concurso de uma marca de cigarro. As eliminatórias com os calouros de todo o Estado começavam três meses antes e no final vinham os cantores famosos, como Xitãozinho e Xororó e Milionário e José Rico.
A maioria dos programas era ao vivo, com todas as dificuldades e improvisações da época. Somente a final do concurso da marca de cigarro e os programas produzidos em fazendas eram gravados. Aymoré Cley ainda guarda com carinho milhares de cartas recebidas durante os anos de TV. ‘‘Naquele tempo não se media a audiência e nunca contei as cartas’’, diz.

PERFIL
Nome: Aymoré Kley
Idade: 76 anos
Destaque: criador dos programas de auditório na TV de Londrina

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