Emerson Dias
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
O que leva um criador de pássaros a dedicar 20 anos de vida em busca de um exemplar próximo à perfeição, somente para ouvi-lo cantar? O motivo poderia ser dinheiro, já que uma ave cantora no top do ranking chega a valer R$ 40 mil. Mas a maioria prefere a recompensa de sentir o prazer de ouvir os gorjeios de seus bichinhos de estimação.
Para Dorival Freire da Silva, 56 anos, cuidar de uma ave e ouvir seu trinado deixa qualquer um alegre. Mas quando um exemplar vence concursos, a felicidade é maior ainda. ‘‘Sou apaixonado por pássaros desde os sete anos, por isso não penso no dinheiro. Mas me sinto realizado quando uma ‘cria minha’ ganha um torneio’’, admitiu Freire.
A especialidade dele são os bicudos e curiós, pássaros quase extintos no Brasil, mas que conseguiram sobreviver em cativeiro graças ao trabalho de criadores autorizados pelo Ibama. Em Foz do Iguaçu, existe um clube (SOFOZ – Sociedade Ornitológica de Foz) com cerca de 80 sócios. O grupo realizou na semana passada o Torneio Nacional de Canto e Fibra de Bicudo e Curió, com 250 participantes.
Freire trouxe dois campeões: Carrapicho e Pirulito. Cada um cotado a R$ 20 mil. Entre 100 bicudos vindos de todo o País, Carrapicho ficou em 2º lugar na categoria Fibra (tempo de canto). ‘‘Vender o bichinho, nem pensar! Graças a eles, ganhei muitos dos troféus que tenho’’, disse Freire referindo-se à coleção de mais de 200 prêmios.
Criar um campeão requer muito trabalho, começando no ninho. Os filhotes, descendentes de linhagens selecionadas criteriosamente, ouvem gravações de pássaros premiados para irem aprendendo as notas mais difíceis e se acostumando com os concorrentes. ‘‘Se você gosta de aves, elas também gostam de você. E esta espécie tem um carinho especial por gente’’, disse Freire, explicando que na língua tupi-guarani, por exemplo, curió significa ‘‘amigo do homem’’.

mockup