Aventura na busca do autoconhecimento
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de agosto de 1998
Jossânia Navolar 
Uma ponte e, de repente, a mente se transporta para uma outra época, atravessando a barreira do tempo. Cheiros, cores, sons e personagens criam vida e as lembranças vão sendo arrancadas dos porões do inconsciente. A primeira sensação pode ser de desconcerto, incredulidade. Mas as lembranças vêm carregadas de emoções. Boas ou ruins, as experiências simplesmente se apresentam, sem censuras. As imagens desfilam como num filme, revelando histórias.
É dessa forma que os livros e os depoimentos descrevem a regressão à vidas passadas. A idéia é atraente à medida que parece transpor o marco do desconhecido. Na tentativa de sanar um problema de saúde, emocional ou físico, em busca do autoconhecimento ou, simplesmente, por pura curiosidade, algumas pessoas se lançam à idéia, contagiadas pela esperança de encontrar respostas para seus anseios. Os que já viveram a experiência, independente de ter sido boa ou ruim, dão um só conselho: cuidado!
O candidato a uma regressão, segundo essas pessoas, precisa ter certeza de que é isso mesmo que deseja e de que está pronto para a experiência. É também necessário conhecer o trabalho do profissional que vai direcionar a regressão e ter consciência de que não se trata de uma brincadeira.
Thais Mattos Leite, 42 anos, terapeuta holística, fez regressão pela primeira vez em 1993, na Índia. Fui conhecer aquele país num impulso de autodescoberta. Fiquei por três meses na Osho-Commune Internacional, um dos maiores centros de terapia e meditação do mundo, conta. O centro é uma espécie de oásis dentro da Índia, um país onde é comum a existência de comunidades, conhecidas por ashram, cujo objetivo é a busca de um maior aperfeiçoamento espiritual. A Osho-Commune difere dos outros ashram por ser mais aberta, recebendo pessoas de diferentes cantos do mundo, explica Thais.
Apesar de sempre ter acreditado em reencarnação, Thais nunca imaginou que problemas atuais pudessem ser originados em vidas anteriores. Talvez, por isso, nunca tinha passado pela minha cabeça fazer uma regressão. Não tinha curiosidade, nem sentia qualquer necessidade. Depois de quase três meses naquela comunidade, participando de grupos terapêuticos e meditações, resolvi fazer uma.
Paulo WolfgangTensãoThais: comecei a sentir uma dor dilacerante no lado direito do meu pescoçoThais diz que resolveu investigar aspectos de vidas anteriores apenas como mais uma experiência de autoconhecimento. Ela aconteceu através de uma massagem de órgãos, especificamente o fígado, diz. Durante a massagem, à medida que o nível de relaxamento ia se aprofundando, uma série de imagens começaram a passar pela mente.
Era tudo muito rápido. Quase não conseguia acompanhar. Com a ajuda da terapeuta fui entrando cada vez mais fundo no relaxamento. Eu continuava consciente, mas extremamente relaxada. De repente, me senti dentro de um quarto imenso, escuro. Um sentimento de raiva se apoderou de mim. Uma raiva que não sabia de onde vinha, mas que se intensificava cada vez mais. Comecei a sentir uma dor dilacerante no lado direito do meu pescoço. Nesse momento, o trabalho da terapeuta foi fundamental. Ela fez com que eu desse atenção a essa dor, quando minha vontade era sair correndo.
Ela lembra que se viu deitada no chão de uma floresta, sangrando com um buraco na garganta. Era uma mordida e eu estava morrendo em função desse ferimento. A época em que isso aconteceu era muito primitiva. Os seres humanos brigavam até a morte por questões de sobrevivência. À medida que eu via as cenas e ia relatando, a terapeuta me guiava, fazendo perguntas. Uma delas era o que eu podia fazer para curar essa ferida. Foi então que me veio uma necessidade grande de gritar. Era como se através desse grito eu conseguisse fechar essa ferida. Foi um grito primordial, primitivo. Ele vinha das entranhas. Enquanto eu gritava, aos poucos a dor ia desaparecendo.
Thais explica que a lembrança de uma vida passada é muito intensa. Durante vários dias, a sensação era de que havia uma cicatriz em seu pescoço. Apesar de dolorosa, a experiência foi esclarecedora. A pessoa que havia me mordido é alguém do meu convívio. Uma pessoa querida, com a qual tenho uma certa dificuldade de relacionamento. A experiência me fez entender o porquê e me permitiu trabalhar mais isso. Sem contar que antes da regressão eu tinha muita dificuldade de me comunicar e sentia dores de garganta com frequência.
Mesmo se sentindo agradecida pela experiência, Thais afirma que o acesso à vidas passadas deve ser encarado apenas como mais uma ferramenta no caminho do autoconhecimento. Não acho que seja, obrigatoriamente, necessário. Através de meditação, um indivíduo pode até chegar naturalmente à lembranças de vidas passadas, sem que precise fazer regressão. Isso pode acontecer à medida que se está maduro e pronto para acessar esse conhecimento. O que acho perigoso é a tentativa de se acessar vidas passadas apenas por curiosidade.
Para Mário (nome fictício), 37 anos, administrador de empresas, a experiência foi traumatizante. Ele passou pela regressão numa clínica de psicologia no interior de São Paulo. Não quer se identificar porque o psicólogo que fez a regressão, além de ser amigo da família, é muito conhecido. Resolvi fazer terapia porque tinha pânico da morte, além de não suportar lugares fechados e escuros. Como Flávio (nome fictício) vivia na minha casa e sabia dos meus problemas insistiu para que eu tentasse a regressão. Isso foi há dois anos.
A história que se desenrolou foi terrível, segundo Mário. Após entrar em relaxamento profundo e verificar que minha vida anterior tinha muito a ver com a minha vida atual, fiquei um tanto desnorteado. Eu voltei até os 3 anos de idade, ainda nessa vida, e me vi berrando, desesperado, dentro de um quarto escuro. Depois, avancei no tempo. E de novo me vi com três anos, só que numa outra existência. Estava de novo num quarto escuro, parecido com o da primeira lembrança, chorando desesperado. Naquela vida, meu pai tinha matado minha mãe a pauladas e depois fugido, me deixando ao lado do corpo dela. Fiquei ali, por quase dois dias.
Segundo Mário, conhecer o passado causou desestrutura em sua vida. A pessoa que era meu pai naquela vida é o meu sobrinho na de hoje que, na época da terapia (1996), tinha três anos. A minha mãe naquela vida continua sendo minha mãe hoje. Contei tudo isso para minha família e ficamos desorientados. Eu fiquei em frangalhos. Não conseguia me recompor. Meu sobrinho, mesmo não sabendo de nada, não podia nem me ver que queria agredir-me. Eu não podia nem falar com ele direito que ele tinha ataques de choro. Até, hoje, ele é arisco comigo. Minha mãe ficou chocadíssima. Apesar de agora ter obtido uma explicação para as dores de cabeça terríveis que sente, sem causas aparentes.
Para sair do problema, conforme Mário, a família recorreu a um centro espírita, por recomendação de uma vizinha. Fiquei em tratamento durante um ano, recebendo passes e orações. Ele diz que pessoas que o atenderam julgaram irresponsável a atitude do psicólogo. Os espíritas só aceitam a regressão em casos raros e quando têm certeza ser de extrema necessidade. Ainda assim, alertam que é preciso saber realizá-la a fim de não atrair problemas. Segundo eles, ao se contatar vidas passadas corre-se o risco de atrair energias obsessoras de outras vidas. Era isso o que estava atingindo a minha casa e a minha família.
Morando há um ano em Londrina, Mário continua em terapia. Estou tratando a depressão que de vez em quando aparece. Algumas vezes, tenho sentimentos e sensações que não têm a ver com essa vida, mas com outras. Eu já tinha esses sentimentos, mas não sabia de onde vinham. Procuro tratar disso com a terapia tradicional e com florais. Regressão, nunca mais. Não aconselho para ninguém.
O advogado Pedro Dejneka, 47 anos, fez terapia de vidas passadas em 1995. Minha experiência foi gratificante. Foi um processo natural, decorrente de minhas buscas. Fiz a terapia com o objetivo de resolver partes das minhas indagações sobre a existência atual. O processo me surpreendeu e fez com que eu entendesse algumas tendências realçadas na minha vida atual.
Antes de chegar a essa experiência, Pedro conta que encontrou pessoas e informações das mais variadas sobre o assunto. Algumas sem fundamentos, outras visando apenas a exploração de uma crença. Quando resolvi fazer a terapia, levei em conta questões técnicas e a credibilidade da terapeuta que iria me atender. Procurei saber, inclusive, as origens da escola na qual ela adquiriu o conhecimento sobre esse trabalho.
Quando fez a terapia, Pedro acredita que já estava preparado para acessar esse tipo de informações. Com o resultado, tive aclarados vários pontos de tendência da minha personalidade e pude direcionar mais objetivamente essa busca do conhecimento sobre mim mesmo.
Ele diz que duas passagens foram importantes. A primeira refere-se à sua sensibilidade para música, que para ele tem explicação numa vida em que foi músico e compositor. Ali tive uma existência muito sofrida, cheia de sacrifícios e morri de maneira prematura. O que talvez explique a minha facilidade em tocar instrumentos e ao mesmo tempo minha resistência em relação a eles.
A segunda passagem é de uma existência que teve como índio norte-americano, na qual era uma espécie de xamã. Ele credita a esse passado o conhecimento que possui de remédios naturais e sua identificação com terapias naturalistas. De formação católica ortodoxa, Pedro hoje se considera um espiritualista. Compreendi que as informações sobre o que nós somos estão em toda parte. Quando descobrimos que a verdade não está num só lugar, aprendemos a aceitar melhor as pessoas e os acontecimentos de nossas vidas e passamos a enxergar com outros olhos até mesmo as diversas religiões.Paulo WolfgangDesconhecidoO ser humano, desde sempre, luta contra o desconhecido. A regressão a vidas passadas é mais um dos caminhos para o autoconhecimento. Para muitos, uma forma de sanar problemas de saúde ou mesmo psicológicos, ou, ainda, simples curiosidade. Porém, especialistas alertam sobre os riscos que as pessoas podem correr ao passar por experiências para as quais elas não estão preparadas.Depoimentos de quem já fez regressão mostram que pessoas que não estão preparadas para a experiência podem sofrer traumas


