Aventura americana já virou tradição
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sábado, 10 de maio de 1997
Giovane Ferreira Correspondente 
Celso MargrafReceitaMicheto, que juntou US$ 20 mil em 16 meses de labor na América: segredo é não embarcar no consumismo dos americanos e nem em víciosPONTA GROSSA - O sonho de uma vida melhor, com a esperança de um dia ter dinheiro para comprar seu carro ou construir sua casa, vem levando centenas de moradores de Reserva (a 110 quilômetros de Ponta Grossa), a trabalhar clandestinamente nos Estados Unidos. Abandonar tudo, deixando família, filhos e esposa, para se aventurar nos Estados Unidos, já é quase uma tradição entre os reservenses.
Hoje, existem aproximadamente 600 trabalhadores de Reserva nos Estados Unidos. Na maioria são filhos, irmãos ou parentes de pessoas que já estiveram lá, ganharam dinheiro e hoje vivem tranquilamente em Reserva. De acordo com Augusto Michetto, 34 anos, um dos primeiros a ir trabalhar nos Estados Unidos, tudo começou em 1985, quando um grupo de quatro amigos resolveu se aventurar e tentar ganhar dinheiro em terras americanas.
Nessa época, Augusto era bancário em Curitiba. Ficou na cidade de Newark, no estado de Nova Jersey, durante 18 meses. Trabalhava em um fábrica de cromagem de metal durante o dia e à noite era funcionário de uma empresa de demolição.
Augusto conta que trabalhava em média 14 horas por dia, com descanso integral somente no domingo. Ele ensina que o trabalho é uma das principais responsabilidades dos brasileiros que se aventuram nos Estados Unidos. É preciso ter consciência de que saiu do Brasil para trabalhar. Não pode ter vício e nem embarcar na onda de consumismo do americano, explica.
Celso MargrafNegócioMuitos trabalhadores retornam para Reserva e montam serraria
Segundo Michetto, existem colegas seus que não souberam economizar, participavam de muitas diversões nos Estados Unidos e agora não tem dinheiro nem mesmo para voltar para o Brasil. Essa situação, lembra Augusto, acontece com muitos brasileiros que vão aos Estados Unidos e acabam se entregando ao vício da bebida e de outras drogas, esquecendo-se que sairam do Brasil para ganhar dinheiro.
Com os recursos que acumulou nos Estados Unidos, Michetto garante que vive tranquilo atualmente. Chegando no Brasil, montou uma loja de produtos agropecuários e outra de implementos agrícolas no município de Reserva, sua terra natal. Em apenas um ano e meio de América, Michetto conseguiu economizar cerca de US$ 20 mil, dinheiro que soube aplicar e o tornou dono de seu próprio negócio.
O aposentado José Lopez Fegueredo, 62 anos, não chegou a sair de Reserva, mas sobrevive com a ajuda financeira de seus filhos, que encontram-se nos Estados Unidos. Antonio Lopez Fegueredo, 34 anos, e Romardo Lopez Fegueredo, 25 anos, estão há 3 anos trabalhando nos Estados Unidos.
Além de mandarem dinheiro para as despesas de seus pais, já compraram uma chácara e algumas cabeças de gado em Reserva. Os dois trabalhavam na roça antes de partirem para essa aventura. Alaíde Lopez Fegueredo, sobrinho de José, também está nos Estados Unidos.
Celso MargrafTudo começou em 85, quando um grupo de amigos descobriu o filão americano
Turistas A maioria dos reservenses entram nos Estados Unidos como turistas. Essa é a maneira mais fácil de conseguir o visto para viagem e permanência temporária nos Estados Unidos. Porém, muitos reservenses já entraram ilegalmente nos Estados Unidos, passando pela fronteira no México.
O proprietário de uma madeireira em Reserva, que preferiu não se identificar, revela que já entrou nos Estados Unidos caminhando, através da fronteira com o México. Ele conta que já foi trabalhar na América quatro vezes, sem nunca ter sido incomodado pela Imigração.
Aderir à febre americana na cidade já se tornou mais fácil. Alceu Garabeli Souza, que já esteve nos Estados Unidos, hoje organiza a maioria das viagens dos reservenses para os Estados Unidos, providenciando os documentos necessários para a viagem. De acordo com Alceu, tudo acontece legalmente, através de uma agência de viagens e turismo de Ponta Grossa.


