Que nome vamos dar ao cachorro?


— De que raça é o seu cachorrinho?

— De todas.

Meu primeiro cachorro era castanho e eu lhe dei nome de Mimi, não sei por quê. Ele era de plástico e me acompanhou durante os anos em que vivi no apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo. Mesmo inanimado, Mimi foi um bom companheiro. Não sei que fim levou; é triste o destino dos brinquedos que desaparecem no vão do sofá do passado. Ninguém bota cartazes na rua dizendo: "Procura-se brinquedo desaparecido. Criança doente". Nunca mais vi Mimi. Hoje só vejo mimimi dos petistas nas redes sociais. Parece que há um conto de Turguêniev com esse nome. Vou à biblioteca checar.

Meu segundo cachorro não era meu. Era dos vizinhos gregos do apartamento da frente, ainda na Alameda Barão de Limeira. Numa noite de Natal, o vizinho grego fugiu do país levando família e bens. Foi uma espécie de cavalo de Troia ao contrário: ele havia dado um baita golpe na praça e, para minha tristeza, levou as filhas Katty e Lia, minhas primeiras paixões platônicas.

Mas o grego deixou um presente: a pobre cachorrinha Laika, sozinha no apartamento vazio. Fosse eu adepto do trocadilho na época, diria: — O cachorro do vizinho deixou o vizinho com o cachorro!

Até hoje eu me lembro dos olhos tristes da Laika, que só não choravam porque não tinham lágrimas. Como nosso apartamento era muito pequeno (tinha só um quarto; eu dormia em um sofá-cama na sala), meu tio Álvaro acabou levando a cachorrinha para sua casa no interior. Até hoje eu me lembro daqueles olhos — eles falavam de futuras tristezas.
Meu terceiro cachorro era mestiço de vira-lata com poodle, quer dizer: vira-lata. E isso era bom. Seu nome era Ace, nome de guitarrista. Ele dormia atrás da máquina de lavar e corria atrás dos carros, até ser atropelado por um e ficar com o rabo imóvel por alguns meses. Achamos que o rabo nunca mais iria se mexer, mas se mexeu. Quando meus pais viajavam, ele chorava a noite inteira — minha mãe descobriu isso por uma vizinha. Hoje Ace deve estar assistindo a tudo lá no céu dos cachorros, onde corre atrás das nuvens, não mais dos carros.

Meu quarto cachorro apareceu na noite chuvosa do meu aniversário de 39 anos. Era um vira-lata, mas tinha algo de raposa, lobo, coelho, canguru, camundongo, lebre, bezerro, pardal e avestruz. Tão feinho que chegava a ser bonitinho. Rosângela lhe deu banho, comida, veterinário e carinho. Com o tempo, ele ganharia peso e se revelaria um cachorro muito inteligente, quase uma raposa.

— Que nome vamos dar ele? — perguntei à Rô durante o primeiro passeio.

Neste momento alguém se aproximou e disse:

— Que bonitinho, tão pequeno. Parece um cisquinho!

E o nome do nosso cachorro ficou sendo Cisco. Ele está latindo agora, vocês ouviram?

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