AVENIDA PARANÁ
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 14 de março de 2016
por Paulo Briguet 
Cecília Meireles na passeata
"Nada acontece na vida política de um país que não tenha acontecido antes em sua literatura." Diante da atual situação política brasileira, não custa relembrar a frase do poeta austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929). Em que parte da nossa literatura estariam previstos os acontecimentos dos últimos tempos? Ouso dizer que uma parte da história contemporânea pode ser achada na obra de Cecília Meireles (1901-1964).
Pouca gente sabe, mas o neto e curador da obra de Cecília vive em Londrina: é o médico Ricardo Strang. Com alegria, avistei neste domingo o neto da grande escritora, no momento em que a multidão de manifestantes acabava de entrar na Avenida Paraná. Eu disse a ele que o Brasil do PT me faz lembrar o "Romanceiro da Inconfidência", obra-prima de Cecília, publicada em 1953.
Dr. Ricardo concordou e disse:
Releia o poema chamado "Dos ilustres assassinos" e você verá por que estamos aqui.
Foi a primeira coisa que fiz quando cheguei em casa. Eis o que dizem os versos de Cecília: "Ó grandes oportunistas,/ sobre o papel debruçados/, que calculais mundo e vida/ em contos, doblas, cruzados,/ que traçais vastas rubricas/ e sinais entrelaçados,/ com altas penas esguias/ embebidas em pecados! // Ó personagens solenes,/ que arrastais os apelidos/ como pavões auriverdes/ seus rutilantes vestidos/ todo esse poder que tendes/ confunde os vossos sentidos:/ a glória, que amais, é desses/ que por vós são perseguidos".
Espantoso, não? Parece uma descrição da atual elite governante do Brasil, que agora está sendo impiedosamente escorraçada pelo povo, não importa se do PT ou da pusilânime oposição. Eles são os "ilustres assassinos": mataram as esperanças do povo brasileiro só não puderam prever que elas renasceriam em um domingo miraculoso.
A esses espectros da política brasileira, refugiados em seus palácios e mansões, ou pateticamente buscando reunir-se ao povo na última hora (vejam os casos dos "oposicionistas" Alckmin e Aécio, vaiados e humilhados), resta o ostracismo ou a cadeia. Para os companheiros que, mesmo assim, insistirem no vício do poder, haveremos de reler os versos do mesmo Romanceiro: "Melhor negócio que Judas/ fazes tu, Joaquim Silvério!/ Pois ele encontra remorso,/ coisa que não te acomete./ Ele topa uma figueira,/ tu calmamente envelheces,/ orgulhoso e impenitente,/ com teus sombrios mistérios./ (Pelos caminhos do mundo,/ nenhum destino se perde:/ há os grandes sonhos dos homens,/ e a surda força dos vermes.)"
Tiradentes, o herói do poema de Cecília, é considerado o mártir da Independência. O dia 13 de março será lembrado, nos livros de história, como a nova Independência do Brasil. E nós poderemos dizer que, em nossa cidade, realizamos a maior das manifestações desse dia. Poderemos contar aos nossos netos que saímos às ruas para dizer: "Liberdade, essa palavra/ que o sonho humano alimenta:/ que há ninguém que explique,/ e ninguém que não entenda!"
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