A esperança das panelas
1. Todo movimento histórico tem os seus símbolos, que nascem de maneira espontânea no coração das pessoas. A cruz talvez seja o mais perfeito exemplo: um instrumento de tortura e morte convertido em sinal de esperança para a humanidade. O mesmo símbolo às vezes é utilizado para o bem e para o mal: a estrela pode ser a do Natal e a do PT; o martelo pode ser o do meu avô (que guardo até hoje) e o do comunismo (que rejeitei para sempre); o hino pode ser o Nacional ou a Internacional.

2. Daqui a alguns anos, quando pensarmos no atual momento histórico do Brasil, um dos símbolos mais importantes será a panela. Todos nós temos panelas em casa. Pobres ou ricos, homens ou mulheres, crentes ou descrentes, jovens ou velhos, otimistas ou pessimistas, altos ou baixos, feios ou bonitos, famosos ou anônimos – qualquer ser humano tem uma panela para chamar de sua.

3. O ser humano nasce, cresce e vive entre panelas. Elas nos acompanham do começo ao fim. Uma de minhas memórias mais remotas é brincar de bater panelas na cozinha, no apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo, em plena ditadura militar. Desde que o homem é homem, a panela ajuda na sobrevivência da espécie. Abençoada seja a nossa panela de cada dia, símbolo do alimento, do trabalho, da esperança.

4. Ela estava ali, ao alcance da mão, no armário da cozinha. Foi escolhida pelas pessoas para representar a insatisfação e a revolta contra o governo petista. Bater panelas é o protesto ideal: não custa nada, faz barulho, vira notícia e a gente nem precisa sair de casa.

5. Um querido amigo, professor de história que não é de esquerda, publicou no Facebook uma foto das filhinhas gêmeas batendo panela durante a fala de Lula na TV. "Um dia elas vão me agradecer por ter participado de um momento histórico", escreveu ele. Muitos amigos e conhecidos de Londrina, entre eles meus sete leitores, publicaram vídeos sobre o panelaço, doravante a trilha sonora indispensável para os programas políticos do PT. Aqui em casa nós também batemos panelas com muito gosto, e com mais força ainda na hora em que Lula falou. Foi um protesto nacional; até o JN deu. E Londrina, mais uma vez, fez bonito.

6. No Brasil do PT, toda panela virou panela de pressão. Com as panelas pressionamos a Dilma, o Lula, o Rui Falcão, o Supremo, o Renan, o Cunha, o Beto Richa. Com as panelas pressionamos os que estão soltos para ser presos e o que estão presos para não ser soltos. Com as panelas pressionamos a oposição a sair de cima de muro. Com as panelas pressionamos as panelinhas dos omissos. Com as panelas preparamos o dia 13 de março e a nova Independência do Brasil.

7. Então, não fique aí parado, oitavo leitor. Pá nela!

Fale com o colunista: [email protected]

mockup