Avenida Paraná
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
por Paulo Briguet 
A esperança das panelas
1. Todo movimento histórico tem os seus símbolos, que nascem de maneira espontânea no coração das pessoas. A cruz talvez seja o mais perfeito exemplo: um instrumento de tortura e morte convertido em sinal de esperança para a humanidade. O mesmo símbolo às vezes é utilizado para o bem e para o mal: a estrela pode ser a do Natal e a do PT; o martelo pode ser o do meu avô (que guardo até hoje) e o do comunismo (que rejeitei para sempre); o hino pode ser o Nacional ou a Internacional.
2. Daqui a alguns anos, quando pensarmos no atual momento histórico do Brasil, um dos símbolos mais importantes será a panela. Todos nós temos panelas em casa. Pobres ou ricos, homens ou mulheres, crentes ou descrentes, jovens ou velhos, otimistas ou pessimistas, altos ou baixos, feios ou bonitos, famosos ou anônimos qualquer ser humano tem uma panela para chamar de sua.
3. O ser humano nasce, cresce e vive entre panelas. Elas nos acompanham do começo ao fim. Uma de minhas memórias mais remotas é brincar de bater panelas na cozinha, no apartamento da Alameda Barão de Limeira, em São Paulo, em plena ditadura militar. Desde que o homem é homem, a panela ajuda na sobrevivência da espécie. Abençoada seja a nossa panela de cada dia, símbolo do alimento, do trabalho, da esperança.
4. Ela estava ali, ao alcance da mão, no armário da cozinha. Foi escolhida pelas pessoas para representar a insatisfação e a revolta contra o governo petista. Bater panelas é o protesto ideal: não custa nada, faz barulho, vira notícia e a gente nem precisa sair de casa.
5. Um querido amigo, professor de história que não é de esquerda, publicou no Facebook uma foto das filhinhas gêmeas batendo panela durante a fala de Lula na TV. "Um dia elas vão me agradecer por ter participado de um momento histórico", escreveu ele. Muitos amigos e conhecidos de Londrina, entre eles meus sete leitores, publicaram vídeos sobre o panelaço, doravante a trilha sonora indispensável para os programas políticos do PT. Aqui em casa nós também batemos panelas com muito gosto, e com mais força ainda na hora em que Lula falou. Foi um protesto nacional; até o JN deu. E Londrina, mais uma vez, fez bonito.
6. No Brasil do PT, toda panela virou panela de pressão. Com as panelas pressionamos a Dilma, o Lula, o Rui Falcão, o Supremo, o Renan, o Cunha, o Beto Richa. Com as panelas pressionamos os que estão soltos para ser presos e o que estão presos para não ser soltos. Com as panelas pressionamos a oposição a sair de cima de muro. Com as panelas pressionamos as panelinhas dos omissos. Com as panelas preparamos o dia 13 de março e a nova Independência do Brasil.
7. Então, não fique aí parado, oitavo leitor. Pá nela!
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