AVALIAÇÃO - UEL amplia sistema de cotas
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quinta-feira, 02 de março de 2017
Simoni Saris<br>Reportagem Local 
Mesmo com todos os avanços decorrentes do sistema de cotas demonstrados pelas estatísticas, o País ainda tem muito a crescer no quesito inclusão. A Síntese de Indicadores Sociais divulgada em 2016 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que apesar de negros e pardos representarem metade da população brasileira, apenas 12,8% deles frequentavam o ensino superior na faixa etária de 18 a 24 anos de idade. Entre a população branca, eram 26,5%, mais que o dobro de negros e pardos.
O sistema de cotas da Universidade Estadual de Londrina (UEL) acaba de passar por uma revisão. No último dia 17 de fevereiro, o Conselho Universitário votou pela ampliação do sistema. Atualmente, a UEL destina 40% das vagas para estudantes de escolas públicas e metade delas são para negros. A partir de 2018, a reserva de vagas passa a ser de 45%, sendo 20% para estudantes oriundos do ensino público, 20% para negros que concluíram a educação básica na rede pública e os outros 5% para negros egressos de qualquer sistema de ensino.
As cotas na UEL foram implantadas em 2004 e essa foi a segunda avaliação feita nestes 13 anos. Além da mudança no percentual, o Conselho aumentou também o prazo de vigência do sistema e aprovou um maior intervalo entre as avaliações. O conselho decidiu que o atual modelo será válido por 20 anos com previsão de uma nova avaliação depois de dez anos, em 2028, quando poderá ser alterada a proporcionalidade na reserva de vagas, mas com a garantia de manutenção dos 45%.
"Essa ampliação é um avanço. Uma mudança importante para saldar essa dívida que a sociedade tem conosco. Uma forma tardia, mas necessária de remediar todo o sofrimento e atraso que nos foi imposto durante anos", avaliou a estudante do quarto ano de Medicina da UEL Fernanda Almeida Euclides.
"A gente tem um vestibular que compara as pessoas a partir de trajetórias muito diferentes sobre o conhecimento que acumularam na vida. Cria uma comparação em um nível de desigualdade muito grande. Nos cursos mais valorizados, a gente via uma presença muito pequena de alunos de escola pública e uma quase ausência de estudantes negros", salientou o diretor de Planejamento e Integração Acadêmica da Pró-reitoria de Planejamento da UEL, Jairo Queiroz Pacheco.
Segundo ele, o sistema de cotas impede que o vestibular trate de forma igual pessoas que tiveram formações muito diferenciadas e dá oportunidade a quem não teria chances de ingresso no ensino superior, ao menos nos cursos mais concorridos, que na UEL são Medicina, Psicologia, Jornalismo e Direito Noturno.
Por outro lado, ressaltou Pacheco, a reserva de vagas também mostra que muitos estudantes que se inscrevem pelas cotas têm notas suficientes para ingressarem pelo sistema universal. Situação que embora seja mais comum nos cursos menos concorridos, também ocorre naqueles mais disputados. "Com o sistema de cotas, há mais alunos negros e de escolas públicas fazendo o vestibular e muitos descobrem que não precisavam das cotas, mas uma parte deles talvez nem fizesse o vestibular."

Sempre tive bom desempenho
Aluna do quarto ano de Medicina da UEL, Gabriela Caroline Liborio Domingos ingressou em um dos cursos mais concorridos da instituição pelo sistema de cotas, em 2014, na reserva de vagas para estudantes negros. Ela concluiu o ensino básico e médio em escola pública, mas desde o início da faculdade não teve dificuldades para acompanhar o conteúdo das disciplinas, embora tenha percebido diferenças no conhecimento em relação aos colegas não cotistas. "Vi que tinha diferenças por ter estudado sempre em escola pública, mas sempre tive bom desempenho. Isso nunca me prejudicou em adquirir conhecimento e nunca fiquei para exame", comentou a estudante.
Um maior ingresso de alunos negros e de baixa renda em um curso majoritariamente frequentado por brancos de classe social mais elevada, afirma Gabriela, pode contribuir para mudar a estrutura do curso, promovendo alterações na grade curricular. A estudante integra o Coletivo NegreX, que tenta agregar não apenas local, mas nacionalmente, os alunos negros das faculdades de Medicina, tornando-se um local de troca de experiências. "Lutamos por melhorias no curso, por exemplo, pela inclusão na grade curricular da temática da saúde da população negra, que não tem, mas está prevista na Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (instituída em maio de 2009 pelo Ministério da Saúde)", declarou Gabriela. "A saúde da população negra não é vista como algo prioritário. Com as cotas, a nossa realidade vai para dentro da faculdade."
Fernanda Almeida Euclides também cursa o quarto ano de Medicina na UEL e assim como Gabriela, ingressou na universidade por meio das cotas para negros. As diferenças na formação escolar foram sentidas ainda no cursinho. "Não tinha visto nem a metade daquilo que meus colegas de sala já sabiam. Praticamente refiz o ensino médio de forma mais enxuta no cursinho", relembrou.
Diante de um histórico de desigualdades, Fernanda não encara o modelo de reserva de vagas como vantagem ou favorecimento, mas como uma forma de suprir um deficit histórico. "Muitas vezes é necessário estudar anos mesmo tendo a nota de corte mais baixa do que o aluno que concorre pelo sistema universal." Também integrante do NegreX, Fernanda ressalta a importância da união dos alunos negros para seu fortalecimento e empoderamento. "Em um curso extremamente elitista como o de Medicina, um aluno cotista sofre, sim, preconceitos, principalmente se for negro." (S.S.)


