Mariana Panta, ex-aluna da UEL: "Daqui a 20 anos, os resultados, que já são bons, vão ser ainda mais visíveis e mais palpáveis"
Mariana Panta, ex-aluna da UEL: "Daqui a 20 anos, os resultados, que já são bons, vão ser ainda mais visíveis e mais palpáveis" | Foto: Fotos: Gina Mardones



Mais de uma década após a implantação do sistema de cotas nas universidades públicas, a medida ainda é questionada enquanto política pública de ação afirmativa para inclusão social. Os críticos do modelo que prevê a reserva de vagas para estudantes negros e egressos de escolas públicas encaram a medida como injustiça, privilégio e afirmam que as cotas contribuem para a queda na qualidade do ensino nas universidades, além de reforçar o racismo. O desempenho dos alunos cotistas ao longo da graduação, no entanto, mostra que a reserva de vagas apenas auxilia o acesso ao ensino superior. Uma vez dentro da universidade, o desempenho entre os estudantes cotistas e não cotistas é equivalente.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também reforçam o sistema de cotas como um método eficaz para correção das diferenças históricas que acarretaram padrões desiguais de inclusão social e de acesso à educação.

Segundo o IBGE, em 1997 o índice de negros matriculados no ensino superior no Brasil era de 1,8%. Em 2011, após a implantação do sistema de cotas em grande parte das universidades estaduais e federais do País, a parcela de negros nas faculdades subiu para 11,9%. Em relação ao desempenho escolar, um levantamento realizado pela Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) apontou que a diferença entre a média de notas dos alunos cotistas e não cotistas é de apenas 0,3 pontos. Recentemente, o Conselho Universitário da UEL votou pela ampliação do sistema. A partir de 2018, a reserva de vagas passa a ser de 45%.

"O sistema de cotas não traz desvantagens para a universidade. Três anos após a primeira revisão do sistema, observa-se que passou de um ingresso de 4,5% de negros para 9%. Houve um resultado positivo", destacou Berenice Jordão, reitora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde as cotas existem desde 2004. As críticas sobre a perda de qualidade no ensino oferecido pela universidade, Berenice rebate com a melhora na avaliação dos cursos pelo Ministério da Educação e Cultura nos últimos anos. "Os cursos foram recebendo maior grau de avaliação. O IGC (Índice Geral de Cursos), que demonstra a qualidade dos cursos de graduação, aumentou ao longo dos anos e os índices de evasão não são diferentes, assim como as notas dos cotistas e não cotistas, que se assemelham", disse a reitora. "Não houve perda de qualidade, houve maior inserção. A universidade ficou com um retrato mais próximo do que é a sociedade", avaliou. No ranking do MEC de 2013, a UEL aparece com IGC Contínuo de 3,64 e conceito final 4, em uma escala que vai de 1 a 5.

"Uma vez que entram na universidade, com a mesma aula, o mesmo material didático, acesso a uma biblioteca com 500 mil volumes e em condições reais e efetivas de igualdade, a performance dos alunos se torna muito próxima", observou o diretor de Planejamento e Integração Acadêmica da Pró-reitoria de Planejamento da UEL, Jairo Queiroz Pacheco. "O deficit é de acesso, não de capacidade de aprendizado. O desempenho se equipara quando há políticas de permanência, que não são só ações de apoio financeiro, mas também de combate ao racismo, bullying e para evitar abusos psicológicos e morais", acrescentou o diretor de Assuntos Acadêmicos da Pró-reitoria de Graduação, Adriano Luiz da Costa Farinasso.

MEDIDA URGENTE
"Não queremos as cotas para sempre. Se for para sempre, significa que não está havendo mudança, mas como medida urgente, (a reserva de vagas) é necessária. A gente quer mudança na educação de base, mas se não tiver políticas específicas para negros, a diferença não diminui. Eles nunca terão condições de competir em igualdade com quem vem das escolas particulares", opinou a ex-aluna do curso de Educação Física da UEL e doutoranda em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Marília (SP), Mariana Panta. Ela ingressou no ensino superior por meio das cotas para negros.

Mariana participou ativamente das discussões em torno da revisão do sistema de cotas da UEL e comemorou a mudança recém-aprovada pelo Conselho Universitário, que estendeu para 20 anos o prazo para uma nova avaliação. "Se faz a avaliação a longo prazo, consegue perceber o impacto daquilo. Daqui a 20 anos, os resultados, que já são bons, vão ser ainda mais visíveis e mais palpáveis." (Leia mais na pág.2)

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