‘‘Leitura não recomendada para mulheres’’, avisa o anúncio de um livro, colocado junto com a correspondência debaixo das portas do condomínio onde moro. O panfleto propagandeia uma obra esdrúxula que promete ensinar o segredo para ultrapassar os cem anos pesando mais de 130 quilos e fazendo sexo.
Seria mais uma propaganda de milagres suspeitos a não ser por um fato curioso: o autor recomenda esconder o livro das esposas, filhas ou amigas, alegando que ‘‘as mulheres já estão com ‘asas’ em demasia’’ e, lendo o livro, acabariam por ‘‘massacrar os homens ao seu alcance’’.
É revoltante perceber que na visão de alguns representantes do sexo masculino, direitos conquistados a duras penas não passam de ‘‘asas’’ desnecessárias injustamente concedidas às mulheres.
A mulher conseguiu maior reconhecimento no mercado de trabalho, é verdade, mas a proporção do sexo feminino nos postos de chefia ainda é pequena se comparada ao índice de homens. Elas trabalham fora e algumas vezes ganham bons salários, mas muitas mulheres ainda acumulam a dupla jornada, responsabilizando-se também por todas as tarefas necessárias ao cotidiano da vida em família.
As estatísticas também confirmam que boa parte das representantes do sexo feminino não conseguiu ‘‘asas’’ suficientes para trilhar seus caminhos. Basta analisar o índice crescente de mulheres contaminadas pelo vírus da Aids por seus próprios maridos e as listas nada animadoras das vítimas de violência doméstica, entre outros exemplos.
Com um exemplo desse, percebe-se que está longe o dia em que a mulher será analisada apenas por suas qualidades, superando de uma vez por todas o preconceito baseado na questão de gênero sexual. A não ser que se trate de uma estratégia de marketing do autor para atiçar a curiosidade feminina.

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