Mireilli Baroni
De Santo Antônio da Platina
Especial para a Folha
O comerciário paulista Marcelo Oscar Leandro de Souza, 31 anos, começou a usar drogas na adolescência. Teve sérios problemas com o vício: tornou-se violento e foi parar na cadeia. Agora, sob tratamento na Comunidade de Assistência aos Dependentes de Drogas (CADD) de Jacarezinho, Marcelo está esperançoso: ‘‘Sinto que essa é mais uma chance de viver que Deus me deu’’.
Há 10 anos, a CADD de Jacarezinho recupera dependentes químicos sem uso de medicamentos. Fundada pelo padre Herbert Ludwig Wamsler, morto há dois anos, a CADD funciona numa fazenda e é mantida com doações e mensalidades pagas pelos internos (três salários mínimos).
O tratamento dura nove meses, em regime de internato, levando o dependente à busca do autoconhecimento. ‘‘Aqui os dependentes enfrentam a crise de abstinência. Existe uma desintoxicação do corpo e é muito trabalhado o lado espiritual de cada um’’, informa Antônio Carlos Choma, juiz de Direito da Comarca de Jacarezinho e orientador geral do CADD.
Em cerca de cinco alqueires, onde estão distribuídos horta, granja, baia, pocilga, curral, tanques para piscicultura, campo de futebol, alojamentos, capela, sala de estudos, sala de jogos e biblioteca, é feito o tratamento de recuperação. Os 32 internos, sempre vistoriados e assessorados por coordenadores e também orientados pelos companheiros mais antigos, praticam a laborterapia para adquirir disciplina, produtividade e senso de organização. Toda a manutenção do local é feita pelos próprios residentes, desde o preparo das refeições diárias, a limpeza, a arrumação e a manutenção da sede, jardinagem, cuidados com os hortigranjeiros e os animais.
A CADD está localizada a 15 quilômetros do centro de Jacarezinho e tem capacidade para 40 internos com idade superior a 14 anos. Os internos participam de reuniões de conscientização e conhecimento sobre a dependência química, com orientação espiritual, e também desenvolvem o espírito comunitário e trabalhos produtivos dos mais variados, sem o uso de remédios, para reduzir as possibilidades de se tornar, novamente, um dependente químico.
A CADD tem três psicólogos e dois médicos psiquiatras, além de outros voluntários. Atualmente, o interno mais novo está com 16 anos e o mais velho com 62. Mas a maioria está na faixa de 18 a 20 anos. Segundo Choma, 72% dos dependentes que foram tratados na fazenda não tiveram recaída.
Na opinião do presidente da instituição, Ari Kalil, o dependente aprende a dar valor a tudo. ‘‘Aqui eles aprendem a entender os mecanismos da vida, tentar resgatar um tempo perdido.’’ A instituição oferece aos residentes a oportunidade de concluir os estudos de primeiro e segundo graus, em parceria com o Centro de Estudos Supletivos (CES) de Jacarezinho. Professores voluntários semanalmente se deslocam até a fazenda para ministrar aulas e provas. Os cursos são reconhecidos pelo Ministério de Educação.

mockup