Se o clima mudou, pode esperar que o humor das pessoas também vai estar diferente. A interferência da clima no comportamento humano já é motivo de estudos de vários profissionais, como geógrafos e psicólogos. ''No caso do calor, a interferência no psiquismo pode ser tanto favorável, quanto desfavorável'', afirma a coordenadora do serviço de psicologia da Centro Universitário Filadélfia (Unifil), Edelvais Keller.
Segundo a psicóloga, com o aumento da temperatura a liberação do hormônio endorfina é maior. ''Assim as pessoas ficam mais alegres e dipostas. Porém, podem sofrer efeito da liberação de outros hormônios que causam irritação'', explica Edelvais. Doutoranda em Psicologia Cliníca pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Edelvais teve o primeiro contato com estas pesquisas quando cursou a disciplina de Psicologia Ambiental. ''Essas reflexões são bem recentes, no Brasil começaram apenas há cinco anos com maior intensidade'', conta.
Sendo esses estudos recentes ou não, muita gente confirma que é influenciada pelo clima. A secretária Vanessa Aguiar de Almeida, de 20 anos, relata que o mudança é mais clara em seus dois filhos. ''O Victor Hugo, de seis meses, fica muito chorão, acho que porque ele não sabe pedir para tomar banho. Além disso, ele não dorme direito e a fralda causa alergia'', conta a secretária. Quanto à filha Emile Nicole, de dois anos, a mãe diz que ela fica muito chata. ''Fico irritada aos domingos quando não tenho o que fazer. Aí vou pra casa de amigas'', admite a secretária.
As intempéries, de acordo com a psicóloga, afetam mais as crianças e os idosos. ''Tem um estudo que mostra que a cada 1 grau aumentado, as possibilidades de morte de pessoas com mais de 65 anos, que sofrem problemas cardio-vasculares, cresce 1,6%'', detalha. Edelvais ainda lembra que as mudanças alteram a pressão e a saúde como um todo das pessoas.
Outro fator que interfere é o efeito estufa, causando estresse térmico. ''Na verdade, isso provoca um pouco esta sensação de lentidão e moleza. É o nosso organismo tentando se adaptar às mudanças'', declara. O aposentado José Aparecido Colombo, de 65 anos, é um exemplo. ''No calor eu sinto um cansaço e uma dor no corpo, enquanto no frio não tenho nada. E o horário de verão piora tudo, porque quando a gente consegue dormir melhor, que é pela manhã, tem que levantar mais cedo'', revolta-se.
Mas enquanto o calor apenas traz irritação para uns, pode ter reações agressivas em outros. ''Foi comprovado cientificamente, que entre os horários mais quentes, das 15 horas à meia-noite, a criminalidade aumenta'', revela a psicóloga. Coincidência ou não, segundo levantamento realizado pela Folha, no verão de 2004 foram registradas 47 homicídios em Londrina, enquanto no inverno esse número caiu para 42. ''O que precisamos é ter cidades mais planejadas, com árvores, para que a imensidão de concreto não crie as ilhas de calor urbano'', afirma Edelvais.

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