Os Correios vêm registrando um aumento no número de carteiros mordidos por cães no Paraná. Ao todo, foram registradas 214 Comunicações de Acidente de Trabalho (CAT) em 2007 no Estado, 21 a mais que em 2006. Em 2005, foram 163 casos. O número de ferimentos causados por cachorros, porém, é bem maior. ''Esses dados referem-se apenas às CAT registradas. Mas há muitos casos em que o ferimento é menor e o funcionário deixa quieto'', explica Rosildo de França, diretor do Sindicato dos Correios do Paraná.
Rolândia está entre os municípios onde o problema é mais grave. Segundo informações dos próprios funcionários, todos os dez carteiros da cidade já foram mordidos mais de uma vez. ''Um dos problemas é que, por ser uma cidade pequena, muitas pessoas costumam deixar seus cachorros soltos na rua'', explica o diretor do sindicato. Enquanto apenas quatro dos cerca de 250 carteiros foram mordidos em janeiro em Londrina, em Rolândia houve quatro casos em apenas uma semana.
''Conheço carteiro que foi mordido duas vezes na mesma semana'', afirma João Horwatich. Horwatich trabalha como carteiro há cinco anos, e já perdeu as contas das vezes em que foi ferido por um cachorro enquanto trabalhava. ''Foram mais de dez com certeza. Já tive que tomar três vacinas'', relata. Apesar do risco, ele diz que os carteiros evitam registrar a CAT nos casos mais leves ''porque dá trabalho, precisa ir ao INSS, demora muito''. Ainda assim, ele chegou a ficar três dias afastado do trabalho depois que um cão mordeu sua coxa.
''Uma vez, quando eu estava na moto, um boxer pulou o portão e mordeu meus dois tornozelos. Quando parei e me sentei no meio-fio, o dono veio dizer que o cachorro é manso. Os donos sempre dizem a mesma coisa'', conta Luis Rogério Fregueto, que diz já ter levado pelo menos umas 15 mordidas, boa parte delas por cães que têm dono, mas ficam soltos na rua.
Depois de tantas experiências, os dois carteiros já têm um ''perfil'' dos cães que costumam atacar: ''geralmente são cachorros pequenos, e vira-latas, que os donos não dão banho nem vacina. Mas também tem cão de raça. Já vimos casos com labrador, collie, cocker, todos esses que as pessoas costumam achar que são mais mansos. Mas aqui em Rolândia é difícil ser atacado por cães de grande porte, como pit bull, rotweiller e pastor alemão, porque nestes casos geralmente os donos tomam mais cuidado'', analisam. Na tentativa de evitar novos incidentes, eles dizem que sempre procuram conversar com o dono do cão.''Mas eles não vêem o carteiro, somente as cartas que chegam, por isso não sabem o transtorno que é. Então, com o tempo, acabam esquecendo'', lamentam.
Mesmo com o cão dentro do quintal da casa, os carteiros costumam passar por apuros. ''Se você não tomar cuidado, leva uma mordida na mão, enquanto coloca a correspondência na caixa dos Correios'', revela Fregueto. Neste caso, porém, se o dono não quiser prender o cão, não há nada a ser feito. ''Quando o cão está dentro de uma propriedade particular, os carteiros apenas são orientados a tomar mais cuidado, porque não podemos interferir lá dentro'', explica França.
Nos casos em que os cães estão soltos, porém, é possível responsabilizar o dono. França exemplifica com a história de um carteiro que seguia sobre uma motocicleta em uma rua de Londrina quando foi derrubado pelo cão, que lhe mordeu seriamente a mão enquanto tentava sair debaixo da moto. O homem precisou ser hospitalizado, e, devido à gravidade do caso, foi tomada uma medida drástica: suspenderam a entrega de correspondências no quarteirão em questão até que o referido cão tivesse a proteção necessária para não atacar outro carteiro. O proprietário do animal ainda precisou arcar com as despesas médicas do funcionário.
''A idéia não é punir, mas preservar a vida do carteiro e pressionar o dono do animal a tomar providências'', justifica França. Em nome da segurança do carteiro e até de outros transeuntes, ele apela para o bom-senso dos proprietários de animais. ''Gostaria de solicitar à população que mantenha o cão dentro de suas casas.''

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