São Paulo- ''Eu sou cricri'', assume um locutor de rádio, de 34 anos. A cicatriz de vários pontos no joelho é uma das marcas da espiral de agressões em que se transformou seu casamento. Uma implicância dele por algo desarrumado em casa aqui. Uma cobrança por ciúme dela acolá. Numa das discussões, de faca em punho, a mulher avançou sobre ele. ''Ela era pequena, mas uma valentia'', lembra o locutor, separado desde 2002, que não perde o bom humor: ''Agora só namoro mulher de 1,80 metro.''
Apesar da brincadeira, o problema é sério e vem crescendo. A agressão física praticada por mulheres contra homens ainda é assunto tabu, mas se torna cada vez mais visível. ''Há duas décadas, essa mudança se tornou flagrante no Brasil.
Antigamente, as agressões das mulheres eram muito pouco evidenciadas, inclusive as verbais, muito mais frequentes que as físicas'', diz o psiquiatra Luiz Cuschnir, do Centro de Estudos da Identidade do Homem e da Mulher (Iden). ''Até algum tempo atrás, era impensável para uma mulher dizer, por exemplo, que a porta da rua é serventia da casa, para revidar uma reclamação do marido.''
VergonhaO locutor não procurou a polícia para denunciar as ocasiões em que a mãe de suas duas filhas lhe atirou copos de vidro, ferro de passar roupa quente e outros objetos ao alcance nos momentos de fúria. Também não denunciou os tapas e os arranhões nem um beliscão na mão que tirou sangue. ''Não pensei em dar parte porque é a mãe das minhas filhas. Procurei parentes dela, pedi ajuda, mas não adiantou. Acho que ela precisa se tratar.'' Para os amigos, não teve coragem de contar. ''Me senti constrangido, era complicado me olhar no espelho.''
Também por vergonha um operador de telemarketing de 26 anos ficou calado durante meses sobre as agressões da mulher. Separou-se ao saber que ela estava grávida de outro. Os problemas do casamento só vieram à tona na Organização Não-Governamental (ONG) Pró-Mulher, Família e Cidadania, que oferece apoio jurídico e psicológico a vítimas de conflito e violência familiar.
''Ficaria meio estranho um homem ir à delegacia para dizer que a mulher bate nele. É vergonhoso demais, pegaria mal'', diz o operador de telemarketing. Receio de apanhar, contudo, ele diz que nunca teve e se orgulha disso. ''Nunca me senti intimidado porque ela é mais fraca. Eu me defendia segurando os braços dela, puxando o cabelo para trás. Ela nunca chegou a me machucar'', garante.

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