Aumenta tensão em área invadida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de agosto de 1997
Alexandre Sanches Alvorada do Sul 
Marcos Borges
Conflito iminenteNa foto de cima, líder sem-terra aponta marcas de bala no trator que os acampados usavam para gradear a terra. Em baixo, a Brasília do arrendatário destruída pelas mulheres do acampamento. A troca de acusações entre arrendatário e sem-terra aumenta a possibilidade de confronto na Fazenda Nossa Senhora Aparecida.
Marcas de bala num trator, um carro queimado, troca de acusações entre o arrendatário e sem-terra aumentaram o clima de tensão na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Alvorada do Sul (68 km ao norte de Londrina). No final da tarde de ontem, o delegado de Bela Vista do Paraíso, Luiz Carlos Azevedo, se dirigia até a fazenda para apurar denúncia do arrendatário, Homero Palma, de que os sem-terra teriam colocado fogo no milharal pronto para a colheita.
Palma também registrou queixa denunciando ter sido recebido à bala pelos sem-terra anteontem à tarde. O arrendatário perdeu ainda o carro, uma Brasília, queimada pelos membros do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que estão acampados na fazenda há um mês. Fui com alguns amigos e irmãos evitar que os sem-terra destruíssem minha lavoura de aveia, explicou.
Os sem-terra rebatem a acusação e afirmam que Palma e pistoleiros teriam atirado contra eles quando gradeavam uma plantação de aveia. Cartuchos de bala calibre 32 foram encontrados na área. Eles garantem que um sem-terra foi baleado e que está internado num hospital da região, mas não revelam a cidade. Nenhuma delegacia foi notificada sobre paciente ferido à bala.
O arrendatário também negou ter atirado contra os sem-terra. Na semana passada, Homero Palma havia denunciado que os acampados atiraram contra ele e amigos que foram vistoriar a fazenda, de 86 alqueires. Eles usam meu trator, meus cavalos e gastam meu óleo diesel para destruir minhas lavouras. Eu sou sem-terra como eles, mas não quero terra deste jeito, desabafa.
Os sem-terra admitem ter queimado a Brasília. As mulheres decidiram queimar o carro, porque, antes deles atirarem contra a gente, dois homens num carro branco tentaram sequestrar duas meninas do acampamento. Nós não vamos aguentar desaforos, declarou um dos líderes do acampamento que não se identificou.
Uma pessoa de confiança nos contou que o Palma está com mais de 20 pistoleiros e que hoje (ontem) à noite ele irá invadir o acampamento. Se eles invadirem, estaremos prontos para recebê-los com foices e facões, ameaçou o sem-terra.
O delegado Azevedo abriu inquérito para investigar a queima da Brasília. Sobre os tiros, disse que está apurando a autoria dos disparos. Ele afirmou não poder tomar qualquer providência sem autorização da Secretaria de Estado da Segurança Pública.


