O número de transplantes realizados no Paraná em 2004 cresceu, em média, 20% em relação ao ano anterior. Até 30 de novembro passado, o Estado registrou 916 cirurgias contra 807 ocorridas em 2003. Segundo a coordenadora da Central Estadual de Transplantes, Arlene Terezinha Cagol Garcia Badochi, esse aumento ainda é pequeno em relação à fila de espera e ao número de possíveis doadores.
Atualmente, existem 3.884 pessoas aguardando um órgão no Paraná que, por sua vez, registra 50 mil mortes por ano, em média. ''Um por cento desses óbitos, ou seja 500, são por morte encefálica. Se 30% destes doassem o fígado, teríamos 150 transplantes no Estado. Infelizmente, não conseguimos nem 10%'', lamentou.
Para Arlene, a falta de envolvimento dos profissionais de saúde nessa problemática é um dos principais fatores dessa defasagem. Embora o balanço do ano ainda esteja em andamento, ela adiantou que a região de Londrina reduziu 'assustadoramente' o número de doações e, consequentemente, a quantidade de transplantes. ''No próximo dia 12, realizaremos uma reunião para discutir o assunto'', afirmou a coordenadora, garantindo que divulgará o resultado do levantamento por regiões no final da próxima semana.
A diretora da 17 Regional de Saúde (com sede em Londrina), Vânia Gutierrez, diz que tem sido realizado um trabalho de sensibilização pelos técnicos da área junto à comunidade (igrejas, escolas, clubes de serviço, etc). ''Aos poucos, as pessoas estão entendendo que doar os órgãos é um ato de amor'', completou Vânia, que atribui à desinformação a principal causa da resistência. Segundo ela, o maior receio das famílias é a deformação do cadáver. ''É um medo infundado'', garante.
O Paraná ocupa o terceiro lugar no ranking nacional de transplantes, ficando atrás de São Paulo (1º), Rio Grande do Sul e Minas Gerais (ambos empatados na 2 posição). De acordo com Arlene, os gaúchos superaram os paranaenses nos últimos anos devido à maior quantidade de hospitais-escola e a formação social que os profissionais de saúde recebem nas universidades. ''Em nosso Estado, apenas 40% dos transplantes de córnea são realizados pelo SUS (Sistema Único de Saúde)'', acrescenta.
A bancária Maria Fernanda Lázaro Evangelista, 27 anos, é uma das 573 pessoas beneficiadas com o transplante de córneas no Paraná no ano passado. Mas, infelizmente, ela está entre os 60% que não puderam contar, integralmente, com o apoio do governo. Ela sofre de ceratocone (doença que deforma a córnea progressivamente) desde os 15 anos de idade e, em abril de 2004, recebeu o órgão para o olho direito. ''Minha visão ainda é um pouco embaçada mas já consigo distinguir os contornos dos objetos. Devo tirar os últimos pontos em março'', explicou.
Maria Fernanda recebeu a córnea de um rapaz da mesma idade que morava em Ibiporã. Por enquanto, ela e a família do doador ainda não se conhecem. A aproximação entre os envolvidos é intermediada pela Regional de Saúde para evitar constrangimentos e choque emocional. A bancária gastou cerca de R$ 4 mil pela cirurgia que, como outros transplantes, não é coberta pelos planos de saúde. ''Antes da operação tinha muito medo por falta de informação. Quando precisar operar o outro olho estarei mais tranquila'', acredita Maria Fernanda, que usa lente corretiva para superar a deficiência.

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