Curitiba O verão ainda nem começou e técnicos da área de saúde já notaram um aumento no número de picadas da Loxosceles intermedia, mais conhecida como aranha marrom. De uma média de 30 acidentes ocorridos em meses mais frios, a partir de outubro historicamente a quantidade de envenenamento por aracnídios pula para 150 por mês em Curitiba.
A incidência de picadas aumenta no verão porque é em dias quentes, e especialmente à noite, que a aranha sai de seu esconderijo à procura de insetos para se alimentar. ''Curitiba se tornou a capital da aranha marrom'', diz o coordenador do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Animais Peçonhentos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Oldemir Mangili.
Ele atribui o crescimento ao aumento da temperatura e a falta do predador natural da espécie, a lagartixa. ''No Litoral não tem esse problema. A temperatura aumenta, mas ali está cheio de lagartixa, que acaba com a aranha'', afirma. Para adaptar-se a essa situação, a aranha mudou de hábitos. De peri-domiciliar, encontrada em meio a entulhos de material de construção e restos de mato nos quintais, passou a ser encontrada dentro das casas.
Segundo a coordenadora do Centro de Controle de Envenenamento de Curitiba, Marlene Entres, a partir de 1992 os casos de picada começaram a ''explodir'' em Curitiba. Em 1989, havia apenas 100 casos em todo Estado. Número que subiu para 1.107 em 1992 na Capital, pulou para a casa dos 2 mil em 1994 e para mais de 3 mil em 2001. No ano passado, foram notificados 6.215 casos de picadas no Paraná, sendo 3.609 em Curitiba. A estimativa é que as ocorrências aumentem este ano. Até setembro foram registradas 2.160 picadas na Capital.
A maioria dos acidentes acontece dentro de casas. 70 a 75% atingem pessoas no momento de vestir a roupa, 15% quando estão dormindo. Como a aranha gosta de se esconder em lugares quentes, a recomendação é para que as pessoas evitem criar locais propícios para o animal. Uma dica é não guardar restos de material de construção em lugares quentes, como o porão ou forro da casa, nem acumular revistas e jornais em casa.
''É importante frisar que aranha não é inseto'', ressalta Mangili. Por esse motivo, não adianta usar inseticida contra a aranha. Ao invés de matá-la, o uso indiscriminado de inseticida contribui para que a espécie se torne resistente.
No Paraná há dois tipos de aranha marrom: a Lexosceles intermedia e Lexosceles laetan. A primeira é responsável por 96% dos casos de envenenamento em Curitiba. No restante do Estado não há dados sobre a ocorrência de cada uma. O veneno da intermedia é mais fraco. A letae, em 30% dos casos de envenenamento, provoca a forma hemolítica, que leva à insuficiência renal e até à morte. Com a intermedia, esse desenvolvimento é raro. A última morte pela forma hemolítica aconteceu em 1995, na Capital.
''O importante é reduzir ao máximo o tamanho da lesão. Reverter depois é bem mais difícil'', diz Marlene, ressaltando que com o tratamento correto é possível evitar complicações. O ideal é bloquear a lesão até 72 horas após a picada. Depois, é só administrar o estado geral de saúde. Ela alerta para necessidade de cuidar para que o local não infeccione. ''A pessoa pode pegar uma infecção, ter uma septicemia e até morrer. Nesses casos, o veneno da aranha não é a causa da morte, mas o lugar torna-se porta de entrada para a infecção''. Em Curitiba, 4% dos casos evoluíram para a forma grave cutânea.

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