Dimitri do Valle
De Curitiba
O número de autuações feitas pelo Conselho Regional de Odontologia (CRO) nos dez meses de 1999 já é maior do que todos os flagrantes do ano passado. A fiscalização registrou 58 ocorrências de exercício ilegal da profissão no Paraná contra 51 casos em 1998. Além dos práticos, os fiscais estão combatendo o trabalho de atendentes que atuam como se fossem dentistas. Na terça-feira, em Curitiba, a clínica do dentista César Andraus, no centro, foi fechada. Motivo: 25 funcionárias realizavam o tratamento dentário dos pacientes.
‘‘A população vem sendo atraída pelos baixos preços’’, explica Eros Petrelli, presidente da Associação Brasileira de Ortodontia e secretário geral do Conselho Federal de Odontologia (CFO). Segundo ele, os planos de saúde, que passaram a cobrir o tratamento dentário, motivaram a participação de funcionários sem habilitação no atendimento aos pacientes.
Os serviços odontológicos pagos pelos planos despertaram a atenção dos dentistas, acrescenta Petrelli. O pagamento é baixo, mas se o número de pacientes for alto, o dentista, através da ‘‘colaboração’’ dos atendentes, pode ganhar um bom dinheiro. ‘‘Isso representa um desrespeito à população e uma mercantilização da profissão’’, comenta.
No flagrante realizado pelo CRO em Curitiba, Petrelli é favorável que o dentista César Andraus seja denunciado no Ministério Público. ‘‘Isso é crime, meu Deus’’, afirma. Andraus, que vai responder a processo ético no CRO, diz que a presença de atendentes trabalhando nos consultórios de Curitiba é normal. ‘‘Elas são treinadas’’, defende-se. Ele acusa o CRO de ter abusado da autoridade. Ontem à tarde, Andraus devolveu aos pacientes radiografias e moldes das arcadas dentárias. Os objetos darão a chance dos pacientes continuarem o tratamento.
Para Vânia Rodrigues, diretora-executiva do CRO, a possibilidade da atendente executar qualquer função de responsabilidade do dentista é ‘‘um absurdo’’. ‘‘Não pode, de jeito nenhum. Têm moças que nem completaram o 2º grau. Como é que vão cuidar das saúde das pessoas?’’, questiona. A obrigação de uma funcionária no consultório é recepcionar o paciente ou ajudá-lo a colocar uma proteção para evitar que a roupa dele suje durante o atendimento. O máximo que a auxiliar pode fazer é preparar para o dentista a massa usada na obturação.
Mas não é apenas com práticos e atendentes que o CRO se preocupa. Das 15 denúncias que o conselho recebe diariamente em Curitiba pelo telefone, muitas são de dentistas diplomados que desempenham especialidades fora de sua área. Uma delas é a ortodontia, que consiste na aplicação de aparelhos corretivos na dentição.
‘‘Se o dentista for clínico geral, ele não pode trabalhar com especialidades’’, explica Vânia. A preferência por práticos e atendentes, na opinião da diretora, é um reflexo da baixa renda dos pacientes. ‘‘É um problema social que empurra o pessoal a querer um tratamento de menor preço, mas nem sempre o mais barato é o melhor’’, analisa. O CRO recebe denúncias de irregularidades através do telefone (41) 264-2251. O denunciante não precisa se identificar.

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