Crianças e adolescentes de uma comunidade carente de Cambé: muito além dos pliés e jetés
Crianças e adolescentes de uma comunidade carente de Cambé: muito além dos pliés e jetés | Foto: Saulo Ohara


Entre sapatilhas, colãs e tutus, Júlia desenvolveu equilíbrio e independência. Juliana, prestes a se formar bailarina, aprendeu a força da solidariedade. Alexandra, Ana, Beatriz e Gabriele passaram a valorizar ações como educação e gentileza no trato com as pessoas. Moradoras de regiões diferentes de Londrina, elas não teriam começado a dançar balé se não fosse por iniciativa de professoras de dança voluntárias que levam a arte para um público improvável, formado por alunos cegos, meninas moradoras de bairros com alto risco de vulnerabilidade social e deficientes físicos. Muito além dos pliés e jetés, crianças e adolescentes aprendem, com o balé, habilidades necessárias para o exercício da cidadania e da vida plena.

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Foi através de uma bolsa de estudos oferecida pela escola Gestos, de Londrina, que Suelen Priscila Ferreira Alves, 26, começou a fazer aulas de balé aos 8 anos de idade. Formada bailarina, ela soube de um projeto da associação do bairro onde morava, na zona sul de Londrina, que ensinava a arte para crianças em situação de vulnerabilidade social, e decidiu dar aulas voluntariamente. "Eu só me tornei bailarina porque ganhei uma bolsa. Então quis dar oportunidade para mais pessoas", recorda.

AULA DE CIDADANIA - Muito além da dança
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Ela assumiu a primeira turma, com dez crianças, em 2006. Hoje, 11 anos depois, o projeto "Na trilha dos sonhos" , que funciona na igreja do conjunto São Lourenço, atende mais de 80 crianças de bairros da região do União da Vitória, na zona sul.

"Moro em um bairro próximo e conheço a história da comunidade. Quando iniciei o projeto, muita gente me desanimou, diziam que balé clássico não ia funcionar com as crianças da região. Mas insisti e deu certo", conta ela, cuja vida também foi transformada pela dança. "Sou formada em educação física, dou aulas de balé, fiz curso de massoterapia e faço formação pedagógica para dar aulas de biologia. Foi graças à dança que descobrir o gosto por dar aulas", avisa.

Implementar um curso de balé clássico sem a estrutura mínima foi um desafio. "Aprendi a dar aulas em escola particular, com espelho, barra e música, mas aqui ainda estamos construindo o que precisamos, por isso tenho que improvisar", relata.

Em 2018 ela vai formar bailarinas clássicas as primeiras alunas que estudaram dança apenas no projeto. "Demora um pouco mais para concluírem porque é só uma aula por semana, mas me sinto muito orgulhosa. Vejo que meu esforço dá resultado", avalia, lembrando que as alunas mais antigas também dão aulas e ajudam na administração. "Sem elas, seria impossível continuar."

Com dois alunos cadeirantes nas turmas, Suelen elegeu a inclusão na dança como o tema anual do projeto, que vai culminar em um festival montado pelos próprios alunos no dia 15 de julho. "Como não conseguimos levá-los para os grandes festivais, decidi fazer um evento interno para que conheçam a rotina. O espetáculo do fim do ano também será sobre inclusão", afirma.

Juliana Neves: "Comecei em um projeto e quero dar a mesma oportunidade para outras pessoas"
Juliana Neves: "Comecei em um projeto e quero dar a mesma oportunidade para outras pessoas" | Foto: Gustavo Carneiro



DOAÇÕES
Levar tantas oportunidades para meninos e meninas que precisam delas tem um custo. Por isso, Suelen conta com doações de roupas de balé, materiais, tecidos e materiais de costura para confeccionar os figurinos dos espetáculos. "A cada nova apresentação, bordamos os uniformes e depois tiramos para usar de novo. Fazemos as coreografias de acordo com as roupas disponíveis", conta.

Uma das beneficiadas pelo "Na Trilha dos Sonhos" foi a estudante de enfermagem Juliana Neves, 22, que começou a fazer aulas no projeto aos 13 anos, ganhou uma bolsa de estudos e está prestes a se formar bailarina. "Comecei por curiosidade, mas me apaixonei e hoje não vivo sem balé. A dança me acalma, faz bem para a alma e tira o estresse", diz ela, que tem dificuldades para conciliar a arte com a faculdade, mas jamais pensou em desistir.

Assim que terminar o curso, ela tem planos de dar aulas voluntariamente na igreja que frequenta. "Comecei em um projeto e quero dar a mesma oportunidade para outras pessoas", antecipa.

SERVIÇO



Para ajudar:
Na Trilha dos Sonhos
(43) 99134-3721
Facebook: https://www.facebook.com/nstballet/

Balé para Cegos
(43) 99825-0491

Balé no Campos Verdes
(43) 3928-4741 ou 3315-3425

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