A audiência da Justiça do Trabalho para definir sobre o sistema de funcionamento da Liga dos Engraxates de Londrina foi remarcada para 6 de dezembro. O Ministério Público entrou com uma ação para impedir a participação de menores de 18 anos. Para uma voluntária, se os adolescentes forem proibidos de atuar no Calçadão (Área Central) a entidade ''perde a razão de existir.''
O embate entre a Liga e a Procuradoria do Trabalho arrasta-se há pelo menos quatro anos. No meio desse cabo-de-guerra estão 23 jovens que passam de três a quatro horas por dia engraxando sapatos para pagar cursos profissionalizantes e ajudar nas despesas de casa.
''Acho que mexer com a Liga é tirar o ganha pão de cada um dos adolescentes. Não têm o que fazer e vão mexer com o que está funcionando'', critica um dos participantes. O jovem de 17 anos, que faz curso de auxiliar administrativo, acrescenta que o dinheiro ganho como engraxate é usado no sustento da filha, de apenas quatro meses.
De acordo com a voluntária Nair Delapria, o funcionamento da Liga dos Engraxantes não caracteriza trabalho, uma vez que os participantes não têm obrigação de cumprir horário. ''É uma forma de encaminhar os meninos para o mercado de trabalho'', alega. Nos últimos tempos, dois foram encaminhados para estágios como torneiro mecânico e auxiliar de escritório.
Hoje, o grupo é formado por 23 jovens, que ganham em média R$ 100,00 por semana. A entidade, criada em 1966, é mantida com recursos arrecadados num bazar semanal e doações. Os próprios engraxates são responsáveis pelo material utilizado, mas ganham refeição e a possibilidade de encaminhamento para estágios.
Para clientes ouvidos pela reportagem da FOLHA, o trabalho dos engraxates deve ser mantido. O ensacador aposentado Osvaldo Teodoro, 56 anos, argumenta que os jovens não estão em situação de risco e que o problema da insegurança está ''por todo lado.'' ''É melhor que eles trabalhem. Se todos trabalhassem, não haveria tanta baderna'', opina. O vendedor João Alves Viana, 58, considerou a proibição uma ''tolice'' e diz que existe o risco de que os jovens entrem no mundo do crime e das drogas.
O procurador Alberto Emiliano de Oliveira Neto enfatizou que entende o papel social da Liga dos Engraxates, mas que a legislação não permite a exposição dos adolescentes a riscos. Ele acrescentou que as outras ações da entidade podem continuar.
''O papel do Ministério Público é ser um defensor da lei. Mas sabemos que toda e qualquer ação que envolve menores exige a participação de outros órgãos públicos, como o Município e o Estado'', declara Oliveira Neto. O procurador disse ainda que ''essa história de que é melhor que o jovem trabalhe do que se envolva com o crime é mito'' e que ''o lugar de criança é na escola.''

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