Atropelado por ônibus, Galego depende de ajuda
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sábado, 12 de setembro de 1998
Lúcio Horta 
A vida já não estava fácil para o aposentado pernambucano João Oberto, 61 anos, conhecido em Londrina como seo Galego. Com problemas sérios na visão que o deixaram quase cego há quase dois anos, mais da metade do salário dele ia para farmácia. Mal sobrava para comprar comida. No dia 12 de fevereiro, no entanto, o que parecia impossível aconteceu: a vida de seo Galego virou de ponta cabeça. E mudou para pior. Muito pior.
Naquele dia, por volta das 12h30, o aposentado saiu de casa e pegou o ônibus até a Escola Profissional e Social do Menor de Londrina (Epesmel), onde receberia alguns remédios. Segundo ele, quando chegou ao destino, em frente à escola, caiu e acabou atropelado pelo próprio ônibus. Quebrou o pé direito e bateu a cabeça no meio fio, ficando desacordado. Em vez de parar e socorrer ou chamar o Siate, o motorista foi até o Detran e depois voltou em um carro particular. Aí me levou até o hospital e disse que a empresa ia ajudar em tudo o que fosse preciso, que era para eu não me preocupar.
Sete meses depois, reclama o aposentado, a promessa feita pelo motorista da empresa - a Transportes Coletivos Grande Londrina (TCGL) - não se confirmou. Ele conta que teve que fazer duas cirurgias no pé direito e precisou comprar muito remédio para evitar infecção. Ainda hoje toma medicamentos e o pé continua bastante inchado. A dificuldade para andar é grande e, à noite, a dor é tanta que mal dá para dormir.
Para piorar a história, seo Galego teve que fazer dívidas. O dinheiro da aposentadoria, que já não dava para nada, foi todo para farmácia e ainda ficou faltando. Foram várias viagens de táxi - quase sem ver e quase sem andar, era impossível pegar ônibus para ir até o hospital fazer curativos -, contas na pensão - a pensionista passou a levar comida na casa dele -, além de armazém e farmácia. Tudo fiado. O aposentado teve que vender a única televisão que tinha em casa, além do velho aparelho de som. Ainda assim, continuou devendo.
Ninguém me deu nada, nem o par de muleta que estou usando, reclama. A farmácia eu ainda paguei, porque a gente que é aposentado tira da boca para pagar farmácia. Mas a coisa ficou difícil. Seo Galego afirma que uma advogada da empresa chegou a procurá-lo e ofereceu R$ 100,00 para ajuda de custo. Na ocasião, pediu todos os recibos com gastos em medicamentos para que pudesse estudar um possível reembolso. Ele não tinha os recibos e também não aceitou o dinheiro porque, segundo diz, não daria para nada. Hoje, com muito sufoco, estima a dívida em aproximadamente R$ 200,00. Fora o que ainda tem para gastar.
Estou devendo e não tenho como pagar. A sorte é que tenho muita gente conhecida, por isso almoço num vizinho, depois em outro, e assim vou levando. Também teve parente de Mogi Mirim (interior de São Paulo) que me ajudou um pouco. Mas estou passando a vida muito difícil, lamenta o aposentado. Ele completa: Olha, se tivesse veneno em casa já feito loucura. Fico desesperado. Nunca tinha ficado devendo para ninguém e ainda tem essa dor insuportável. E ela (a empresa) tem tanto dinheiro, é tão rica, e eu aqui, sem ter o que fazer. Não é certo.


