Atração pelo jogo pode virar doença
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sábado, 26 de julho de 1997
Dary Júnior 
Curitiba
Kraw Penas/Arquivo FolhaCompulsãoParte dos frequentadores dos bingos, contagiados pela febre do jogo que motivou a abertura de diversas casas nos últimos 2 anos, joga compulsivamenteO comerciante E.B.S., 38 anos, é o que pode se chamar de jogador compulsivo. Loteria esportiva, quina, sena, mega-sena, pôquer, canastra e, ultimamente, bingo. Jogo pouco dinheiro e apenas por diversão, justifica. Pouco ele acredita que seja um gasto de até R$ 1 mil numa noite de jogatina. À procura de diversão, já perdeu até o próprio carro. Mas já ganhei R$ 3 mil numa rodada, ressalva, com um largo sorriso.
Para o psicoterapeuta Celso Maçaneiro, 51 anos, trata-se de um caso típico. Quando a pessoa que joga compulsivamente chama isso de diversão, pode ser um sinal de que já está doente, explica. Segundo ele, há um grande número de doenças mentais ainda não catalogadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O jogo compulsivo é uma delas, avisa o especialista, com a autoridade de quem coordena uma clínica de recuperação de dependentes químicos em Curitiba.
E.B.S. vê com tranquilidade o fato de jogar bastante. Não sou descontrolado, afirma. Como o comerciante já perdeu uma pequena parte de seu patrimônio em apostas, Maçaneiro pensa justamente o contrário. Saudável é apostar uma vez ou outra na loteria quando o prêmio está acumulado, por exemplo, diz o psicoterapauta. O perigo aparece a partir do momento em que você começa a se desfazer do que tem para jogar, completa.
Enquanto o comerciante E.B.S. não aceita o rótulo de jogador compulsivo, a dona de casa A.A.A., 54 anos, assume: Sou viciada em bingo, deixo qualquer compromisso para participar da rodada das 18h. No caso dela, o jogo surgiu como uma espécie de terapia. Ficava trancada em casa, estava deprimida, com reumatismo, lembra. Quando comecei a jogar, descobri um ambiente agradável, fiz novas amizades e me tornei mais alegre, acrescenta.
A.A.A. revela que sua única filha, psicóloga, não é lá muito simpática em relação ao jogo. Ela brinca comigo, ameaça me internar por causa do bingo, conta. Mantida com a pensão do ex-marido, a dona de casa limita a R$ 2 mil por mês o gasto com as cartelas. Mas o que eu ganho nas rodadas repõe tudo, apressa-se em dizer. O depoimento dela prova sua dependência, avalia Maçaneiro. De acordo com ele, o comportamento de A.A.A. poderia ser explicado pela sua infância.
Isso varia muito, mas é possível que ela se sentisse discriminada quando criança e tenha tido uma irmã que recebia mais presentes, para ilustrar uma situação comum, teoriza o especialista. O subconsciente então estimularia essa necessidade de repor aquilo que deixou de ganhar, o que poderia explicar a compulsividade pelo jogo, supõe Maçaneiro. Para ele, esse comportamento pode se estender pela vida inteira se a pessoa não for ajudada.
O psicoterapeuta também comenta o fato de nenhum dos jogadores relacionados nesta reportagem ter a coragem de dizer o nome e permitir ser fotografado. No fundo, ambos têm consciência do problema, mas não querem aceitá-lo porque entendem que seria vergonhoso se expor como um jogador inveterado, analisa. Maçaneiro sugere que essas pessoas procurem tratamento. Não existe remédio para culpa ou vergonha, adverte.
As pessoas que convivem com jogadores compulsivos precisam compreender o problema e oferecer apoio. No caso, orientá-los para que se tratem, observa Maçaneiro. Ele ressalta que as sequelas do jogo são psico-sociais (endividamento e solidão, por exemplo), mas podem evoluir para danos físicos se houver associação com álcool ou drogas. Temos casos que comprovam o risco altíssimo dessa combinação, assegura o especialista.


