Rio Tibagi eu vim para cantar. Ao Deus que fez a terra, toda chuva, cachoeira e todo o mar. Rio Tibagi eu vim para gritar. Eu quero terra livre, toda água corrente a desaguar’’. Com este canto, moradores de Jataizinho (21 km a leste de Londrina) iniciaram o ato de defesa ao Rio Tibagi realizado ontem pela manhã na cidade.
  Organizado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), em parceria com a Arquidiocese de Londrina e Diocese de Cornélio Procópio, o evento encerrou a semana de luta contra barragens, que reuniu mais de 1,5 milhão de pessoas em Curitiba, durante o Encontro Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).
  Segundo o padre Antônio Luiz Martins, da comissão organizadora, o objetivo do movimento é conscientizar a população ribeirinha da importância ambiental do rio. ‘‘Também contestamos os resultados do estudo de impacto ambiental que possibilitará a construção da usina hidrelética Mauá, entre Ortigueira e Telêmaco Borba, o qual não levou em conta toda a dimensão do Tibagi’’, disse.
  O secretário da CPT do Paraná, Jelson Oliveira, ressaltou que mais de um milhão de pessoas já foram desalojadas em decorrência da criação de barragens no Brasil. Deste total, 80% não receberam nenhum tipo de indenização. ‘‘O problema é a privatização das usinas. Mais de 60% da energia mundial está nas mãos de uma única empresa, que é dona não só da energia como também da água utilizada na produção energética’’, afirmou.
  Segundo ele, estudos apontam que em 2050, 75% da população mundial viverá sem água, pois o recurso estará nas mãos de empresas privadas. ‘‘Este número representará cerca de 9 bilhões de pessoas’’, enumerou.
  Jelson Oliveira apontou ainda que até 2015 deverão ser construídas mais de 170 barragens em todo o País, comprometendo a economia e, principalmente, a fauna e flora local. ‘‘As comunidades ribeirinhas é que garantem a manutenção da biodiversidade dos rios. Se as famílias foram desalojadas, o patrimônio hídrico será destruído pela poluição de esgostos domésticos e industriais e também pelos agrotóxicos’’, declarou.
  Em Jataizinho, o impacto das barragens irá afetar pequenos e médios produtores rurais, uma reserva indígena, além da população urbana, que terá acesso a uma água de qualidade inferior. ‘‘Essa região nunca teve um projeto governamental que priorizasse a exploração racional dos recursos hídricos’’, salientou Oliveira.
  O ajudante de manutenção Geraldo da Rosa, que participou da celebração de ontem, lembrou de uma reunião realizada na cidade há três anos, quando foi discutida a construção da usina Mauá. Para ele, apesar dos empregos que trará à região, o prejuízo ambiental será terrível. ‘‘A gente não vai sentir, mas nossos filhos vão’’, previu.
  Pescador nas horas vagas, Eliberto Soares Peixoto ainda consegue a mistura das refeições diárias no rio. ‘‘Sempre pesco um lambari aqui outro lᒒ, contou. Defensor do Tibagi, ele deseja que o rio siga seu curso. ‘‘Espero poder ver o Tibagi livre até o fim da minha vida’’, desabafou.

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