Atleta cego vence dificuldades e ganha qualidade de vida
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 05 de janeiro de 2011
Carolina Avansini <Br>Reportagem Local 
Jaguapitã - Marcelo Braga Ferreira, 36 anos, vivia uma vida sem regras antes de ser vitimado por uma meningite que o deixou cego aos 23 anos. A perda da visão, contraditoriamente, trouxe mudanças que extrapolaram a adaptação à incapacidade de enxergar. Depois de ficar cego, Ferreira desenvolveu uma nova profissão, passou a praticar esportes e consagrou-se campeão paranaense de levantamento de supino.
A reviravolta na trajetória de Ferreira aconteceu seis anos depois da doença. ''Eu trabalhava com funilaria e pintura, mas, depois da meningite, não conseguia lembrar como era um carro. Quando uma pessoa me desafiou a lavar e polir um veículo, aceitei a aposta e consegui chegar ao final. Desde então, trabalho com lavagem e polimento'', contou.
A primeira experiência, relembra, foi difícil e dolorida. ''Tive que aprender a sentir a sujeira com as mãos'', contou. Ainda hoje, ele usa o tato para perceber onde estão os resíduos. Os clientes, já cativos, aprovaram o serviço minucioso e não deixam faltar trabalho.
''O movimento maior é no final de semana. Lavo os carros na casa das pessoas ou na rua.'' De acordo com o lavador, ainda tem gente que não acredita na cegueira, tamanha a precisão dos movimentos. ''Não enxergo nada. Minha visão é a alma e o coração'', filosofou.
Depois de voltar ao mercado de trabalho, ele entrou no mundo dos esportes através de um acaso. Quando procurou uma academia de Jaguapitã para vender alguns pesos que possuía, teve o negócio negado, mas, graças à sensibilidade do treinador Rogério Adriano George, foi convidado a treinar no local. ''Fizemos algumas adaptações para possibilitar o treinamento. Desde então, o Marcelo se desenvolve cada vez mais. Eu mesmo voltei a competir por causa dele'', contou George.
O atleta cego, que levanta 160 quilos de supino, consagrou-se campeão paranaense da modalidade, considerando a deficiência, e ocupa o quarto lugar no ranking geral. ''Meu objetivo é chegar às Paraolimpíadas de 2014'', planeja.
Enquanto os jogos não chegam, ele dedica-se aos treinamentos diários e batalha, ao lado do treinador, a organização do Campeonato Paranaense de Levantamento de Peso, que será realizado em Jaguapitã no mês de maio. A competição será a primeira que contemplará a categoria de paraatletas. ''A deficiência é difícil, mas, ao contrário do que poderia imaginar, me trouxe muito mais qualidade de vida.''


