A organização não-governamental Médicos sem Fronteiras criticou duramente o acordo celebrado dias atrás pela ONU com cinco grandes laboratórios fabricantes de medicamentos antiaids. Embora o acordo tenha a finalidade de reduzir preço dos remédios, a organização argumenta que ele impedirá que os países pobres possam fabricar suas próprias drogas, a preços adequados.
‘‘O acordo não faz nada para estimular o direito de os países produzirem ou importarem medicamentos genéricos baratos e de alta qualidade, um elemento decisivo para soluções sustentáveis de longo prazo no acesso a medicamentos essenciais’’, diz a Médicos sem Fronteiras.
Os medicamentos genéricos são aqueles cuja composição se limita ao princípio ativo, e por isso são mais baratos tendo a mesma eficácia dos patenteados.
‘‘Reduzir os preços dos medicamentos em até 90% é uma boa idéia, mas não constam do acordo compromissos concretos por parte dos laboratórios, os governos e os doadores internacionais’’, alerta a Médicos sem Fronteiras,criticando o estabelecimento do diálogo entre a ONU e cinco companhias farmacêuticas para melhorar a administração de medicamentos e a assistência às vítimas de aids, anunciado pela Onusida, a agência encarregada de combater a epidemia.
Os cincos laboratórios são Boehringer Ingelheim, Bristol-Myers Squibb, Glaxo Wellcome, Merck and Co. Inc. e F. Hoffmann-La Roche.
‘‘Achamos que o início da discussão deveria ser entre as próprias companhias, tendo em vista a redução do preço de medicamentos. A queda desses preços é uma vitória, mas muito pequena, semelhante à história da montanha que muito ruge para parir um rato’’, diz Bernard Pecoul, da Médicos sem Fronteiras. Ele acrescenta que, na realidade, as drogas para combate à aids continuarão fora do alcance da vasta maioria dos necessitados de países mais pobres.
Monopólio A organização não-governamental esclarece que esse tipo de programa poderia ter como consequência uma ulterior consolidação do mercado de medicamentos em mãos de um número cada vez menor de laboratórios multinacionais, desalentando o crescimento dessa indústria nos países em desenvolvimento.
Outros ativistas, que lutam por um maior acesso a tratamentos vitalícios, manifestam profundo ceticismo a respeito do acordo. Sharon Ann Lynch, da organização Act Up, diz, por exemplo, que os laboratórios estão fazendo tudo o que podem para impedir que as nações africanas tenham auto-suficiência no combate à aids. Esse grupo acrescenta que as leis de patentes atam as mãos dos países pobres, ao mesmo tempo em que impõem uma dependência das corporações multinacionais.
‘‘Em troca de uma moderada redução nos preços, os laboratórios impedem que os países pobres fabriquem versões genéricas e baratas de medicamentos patenteados e caros’’, conclui a Act Up.
O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, anunciou que seu governo não tomará nenhuma medida de represália contra os países pobres, em especial os da África subsaariana, que cometam eventuais violações das leis de patentes na produção de drogas contra a aids, a custo menor.

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