O projeto de lei que prevê a doação para iniciativa privada de uma área de 90 mil metros quadrados, localizada no aterro do Igapó 2, no Jardim Maringá (área central de Londrina), abre um precedente perigoso: se a própria prefeitura não respeita a lei municipal, que impede edificação em área de fundo de vale, quem é que vai respeitá-la?
A indagação é do engenheiro agrônomo Efrain Rodrigues, professor do Centro de Ciências Agrárias (CCA) da Universidade Estadual de Londrina (UEL) que em julho defendeu tese de doutorado, na Universidade de Harvard (EUA), sobre o processo de fragmentação das florestas.
Com grande experiência no assunto - a tese de mestrado dele tratava sobre os efeitos da urbanização em uma floresta -, o professor também discorda da posição apresentada pela prefeitura de que a área do aterro, composta basicamente por entulho, não é recuperável. ‘‘Eu aposto minha tese nisso’’, afirma, lembrando da alta fertilidade da terra roxa da região.
Efrain Rodrigues garante que já trabalhou na recuperação de áreas piores do que a do Igapó, com ótimos resultados. Ele explica que a incidência de gramíneas no local, como existe hoje, já é um forte indicativo do potencial de recuperação da área - as gramas necessitam de muitos mais nutrientes do que uma árvore para sobreviver. ‘‘Tem árvore que cresce onde gramínea não cresce’’, observa.
Para discutir estas questões e tirar uma posição comum da universidade sobre o assunto, o professor defende a criação de uma comissão multidisciplinar - envolvendo áreas distintas como arquitetura, história, geociência, biologia, entre outras. Ontem à tarde, a promotora do Meio Ambiente de Londrina, Maria Lúcia Reichenbach, iria enviar ofício ao reitor da UEL, Jackson Proença Testa, justamente para solicitar um trabalho da universidade indicando quais são as reais possibilidades de recuperação do Igapó.
Efrain Rodrigues acrescenta que esta comissão poderá indicar propostas de alternativas para o aterro. Ele acredita, por exemplo, que seria possível estabelecer na área fragmentos de floresta, tornando-a um refúgio da fauna, além da flora, o que poderia trazer benefício até para o clima e a umidade da região.
Mas para decidir sobre isso, destaca o professor, é importante que seja constituída essa comissão multidisciplinar, para que não prevaleça no trabalho apenas a visão de um setor da universidade. A assessoria de imprensa da UEL informou ontem de manhã que a reitoria só iria se manifestar sobre o assunto depois que recebesse o ofício da promotora.
Além do trabalho que pode ser realizado pela UEL, a promotoria do Meio Ambiente também solicitou ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP), há cerca de 10 dias, um trabalho semelhante, para que fosse apontado quais são as possibilidades de recuperação do aterro do Igapó. O trabalho do IAP deverá ficar pronto em 10 dias.
A Secretaria de Obras enviou ontem à Secretaria de Negócios Jurídicos da Prefeitura o memorial descritivo da área, para que seja dado prosseguimento ao processo de licitação. O secretário de Negócios Jurídicos, Eduardo Duarte Ferreira, não foi encontrado para explicar em que fase está o processo. Mas no final da tarde, o prefeito Antonio Belinati garantiu que a licitação só será aberta após estar concluído o laudo do IAP. ‘‘Sem laudo não tem licitação,’’ afirmou.

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