Atendimento particular facilita cesárea
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quarta-feira, 10 de novembro de 2004
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Aos 36 anos, Antônia, grávida de gêmeos, sentiu medo ao saber que o hospital público onde teria os bebês não a indicaria para a cesárea. Após um interminável trabalho de parto, uma das crianças nasceu. A outra foi tirada por cirurgia duas horas após o primeiro nascimento. Os gêmeos têm, atualmente, quatro anos. As consequências do parto são sentidas até hoje pela mãe, que ficou com problemas na coluna e não pode mais trabalhar.
Em um hospital que atende pacientes particulares e de convênios, Patrícia (nome fictício), 24 anos, enfrentou situação diferente. Apesar da opção pelo parto normal, teve a filha por cesárea, com 38 semanas de gravidez, por indicação da obstetra. ''Eu sentia que não estava na hora, mas ela insistiu'', contou a moça, cujo bebê de três meses nasceu com 2,380 quilos.
A experiência das duas mães expressa a realidade das maternidades brasileiras. Nas instituições públicas, os profissionais insistem pelo parto normal mesmo quando a gestante pede a cirurgia. Nos hospitais que atendem o sistema privado, a cesárea é mais comum, apesar de a Organização Mundial de Saúde (OMS) preconizar o parto natural como o mais saudável para mães e bebês.
Londrina segue esta tendência. Na Maternidade Municipal Lucilia Balalai, que atende apenas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), 70% dos 370 partos mensais são normais. Os números do Hospital da Mulher são inversamente proporcionais. Na instituição cujos pacientes são particulares ou de planos, são 90 a 120 partos realizados por mês, dos quais 70% são cesáreas. No Mater Dei, que também não trabalha com o SUS, o número de cesáreas é ainda mais expressivo: 83%.
O diretor médico do Hospital da Mulher, João Fernando Cassaro Góis Filho, afirmou que a cesárea surgiu para resolver os problemas inerentes aos nascimentos e tem indicações específicas. Sua função, porém, acabou desvirtuada pelas condições de trabalho dos médicos e pelo medo das gestantes de encarar as dores do parto. ''Quando as pacientes não estão emocionalmente preparadas, os médicos cedem aos apelos e acabam fazendo a cesárea'', disse ele.
Segundo Góis, de todos os planos de saúde que têm convênio com a maternidade, apenas o que atende funcionários públicos federais remunera mais pelo parto normal. ''Eles consideram que o médico terá de ficar mais tempo no hospital e pagam melhor'', informou. Segundo o médico, nos outros casos, a remuneração é praticamente a mesma para os dois tipos de procedimento, o que leva alguns profissionais a induzirem a paciente a fazer a cirurgia para agilizar o processo.
Na Maternidade Municipal, não há escolha. Desde que não haja indicação para cesárea, a opção dos médicos é sempre pelo parto normal. O procedimento, segundo o diretor geral do hospital, Rodrigo Rosseto Avanso, é o que oferece menos riscos à mãe e ao bebê. ''Intervenção no parto, só em caso de necessidade.''
Ele garantiu que, apesar dessa filosofia, a maternidade não tem o hábito de estender o trabalho de parto além das possibilidades da mãe. Mesmo assim, há vários casos de gestantes que perdem seus bebês ou têm crianças com sequelas por causa do exagero na espera pelo parto normal. ''Normalmente, são mulheres que chegam com complicações graves que já prejudicaram o bebê. Nessas situações, a intervenção é tardia'', justificou, acrescentando que a orientação é nunca esperar para procurar o médico.


