Marcelo AlmeidaConfusão mentalDionísio Pereira não sabe sequer quantos anos tem. Ele chegou ferido ao albergue da FAS-SOS, dizendo ter apanhado de um grupo de rapazes, que lhe roubaram o cobertorA FAS-SOS é o albergue mais central do sistema em Curitiba e, por isso, recebe principalmente a população de rua. Algumas pessoas chegam espontaneamente. Outras são levadas pelas equipes que fazem a abordagem de rua e as convencem a irem para o albergue. Segundo a assistente social da FAS Maria de Lourdes Aguiar, este tipo de atendimento tem evitado mortes por causa do frio nas ruas da cidade.
Muitas pessoas chegam alcoolizadas, sujas e com mau cheiro e a maioria tem problemas mentais. Depois de se registrar e responder a um questionário, as pessoas tomam banho com a ajuda de funcionários do albergue. A roupa e os pertences do albergado são guardados, quando estão em condições de serem reaproveitadas, mas às vezes são descartadas. As pessoas recebem um pijama e são encaminhadas para o refeitório, onde tomam o sopão. Cama limpa, cobertor e encaminhamento ao hospital-dia complementam o atendimento. Muitos albergados preferem voltar às ruas e retomam seus pertences no dia seguinte ou ganham roupas novas.
Dionísio Pereira não sabe ao certo quantos anos tem. São mais de 70 anos de idade. Ele chegou ao albergue alcoolizado, ferido e tossindo muito, contando que tomou chuva durante a noite anterior e foi agredido por um grupo de rapazes que lhe roubou o cobertor. No meio de sua confusão mental, Dionísio desabafa: ‘‘Não tenho família. Perdi tudo por causa da bebida. A miséria da bebida não presta. Vou parar.’’
Jair Afonso Ortiz, 35 anos, conta que pegou duas pneumonias dormindo na rua e que queimava pneus embaixo de um viaduto para se esquentar. Depois que os pais morreram, ele continuou internado no Hospital Adauto Botelho, onde sua mãe trabalhava, mas acabou sendo expulso quando roubou a kombi do hospital e levou alguns doentes mentais até Ponta Grossa. Do manicômio judiciário, onde passou oito anos, ele foi para a fazenda da FAS onde trabalhou durante alguns anos, mas teria sido expulso por beber cachaça no alojamento. Depois disso, saiu vagando pelas ruas e agora está novamente sendo encaminhado pela FAS.
A assistente social Maria de Lourdes Aguiar conta que a maioria dos albergados tem problemas mentais e quando passam a frequentar o albergue são medicados no hospital-dia e melhoram. Estabilizando suas condições mentais e emocionais, passam a dar informações verdadeiras que podem ser investigadas. Com isso, muitos são reintegrados às famílias e outros são encaminhados para instituições especializadas, quando há vagas.
Para Rosane dos Santos Pereira, 30 anos, não há chances de volta para casa. A equipe já confirmou a informação que ela mesmo tinha dado de que sua família não tem interesse em tê-la de volta. Além de epilepsia, ela apresenta problemas mentais e conta que foi colocada num ônibus no Rio Grande do Sul para Curitiba. Logo que chegou, dormiu nas ruas e não sabe dizer se sentiu mais frio ou medo.
Jorge Augusto Daru, 45 anos, chama atenção pelo discurso em Português correto, contando que durante 12 anos esteve nas ruas de Curitiba. Vendedor ambulante, quando o dinheiro faltava, se abrigava nas ruas, onde observou a cidade crescer. Daru sonha em fazer faculdade de Direito e Filosofia. ‘‘É uma vocação que vem de berço, sabe? Mas no momento estou impossibilitado’’, observa, apontando para os pés enfaixados. Diabético, amputou um dedo em cada pé por causa dos ferimentos causados pelas caminhadas nas ruas.

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