O serviço público odontológico no Brasil em vez de melhorar a qualidade bucal dos pacientes idosos acaba mutilando, e as mulheres são as principais vítimas. A conclusão é do professor do Departamento de Odontologia da Universidade Estadual de Maringá, Gilberto Alfredo Pucca Júnior, que realizou uma pesquisa durante quatro anos em São Paulo. A pesquisa serviu para a tese de mestrado realizada na Escola Paulista de Medicina, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A tese é sobre ‘‘O perfil da saúde bucal do idoso’’.
A pesquisa foi realizada de 1992 a 1996 com 1.667 pacientes idosos. Quatro anos de pesquisa é o tempo mais longo de levantamento já feito com as mesmas pessoas no Brasil. Dos idosos investigados, 65% não têm nenhum dente na boca. Entre os desdentados, as mulheres são maioria. De acordo com o professor, o número de mulheres idosas (acima de 65 anos) sem dentes, corresponde ao dobro do número de homens idosos com o mesmo problema.
A deficiência da saúde bucal das mulheres, conforme Pucca Júnior, revela o ‘‘péssimo atendimento do setor público’’. Ele explica que a relação pode ser feita levando-se em consideração a política de atendimento público no Brasil, onde somente as crianças em idade escolar e gestantes recebem todo tipo de tratamento. ‘‘Levando-se em consideração que apenas 20% da população brasileira é atendida no setor público e que o homem adulto não tem acesso a este atendimento, (com exceção das mulheres), a perspectiva era de que elas tivessem uma saúde bucal melhor’’, disse. Para Pucca Júnior, o elevado número de mulheres sem dentes comprova que o setor público mutila e apresenta uma qualidade de atendimento péssimo.
A pesquisa também detectou que na maioria dos locais de atendimento público, é frequente a existência de cartões dos profissionais que fazem prótese. ‘‘Isso é um indicativo muito evidente de que as pessoas são atendidas no setor público para fazer a extração dos dentes e depois colocam prótese no setor privado’’, disse. Segundo o professor, a pesquisa revelou que, ‘‘quanto mais a pessoa procura atendimento no setor público, mais dentes ela perde’’.
Alguns fatores contribuem para a perda do dente entre os pacientes que dependem do atendimento público. O mais evidente é a falta de atendimento completo ao paciente. Hoje, o serviço público se limita à extração. Se o paciente tiver um problema de canal, ou quer fazer uma obturação, através do setor público este tipo de procedimento não é realizado. ‘‘O paciente não tem condições de pagar o tratamento e acaba se rendendo a única opção oferecida no setor público: a extração’’.
Apesar da pequena parcela da população que frequenta os consultórios de dentistas, a pesquisa revelou que quanto maior a renda do idoso, mais dentes ele tem. Não necessariamente porque ele vai ao dentista particular, mas porque tem uma melhor qualidade de vida, com mais informações e acesso aos serviços de saúde.
De acordo com Pucca Júnior, o Brasil precisa repensar o atendimento odontológico no setor público. A pesquisa revelou que o País não está preparado para oferecer uma melhor qualidade de vida aos idosos. Hoje, os idosos representam 8% da população. Em 2020, serão 15%. ‘‘Se a política nacional de atendimento público no setor odontológico não mudar, teremos uma grande parcela da população de desdentados’’.

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