Até quem não precisa recebe Bolsa Família
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sábado, 17 de julho de 2010
Luciano Augusto e<br>Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
Não é por acaso que os dois candidatos à presidência mais bem colocados nas pesquisas, Dilma Roussef (PT) e José Serra (PSDB), reivindicam para seus partidos a paternidade do programa Bolsa Família. Mais de 12 milhões de brasileiros estão na lista de pagamento de julho do programa. No Paraná, são 443.951 beneficiários. É como se para cada 24 paranaenses um recebesse o dinheiro governamental. Somente nos cinco primeiros meses de 2010, R$ 187,3 milhões foram despejados no Estado pelo programa. Em alguns municípios, como Altamira do Paraná e sua vizinha Laranjal (Centro), e Doutor Ulysses (Leste), o grau de dependência é tamanho que o índice habitantes/bolsa é pior do que os números de Maranhão, onde a cada 7,4 habitantes um é beneficiário, e Piauí, que dá uma bolsa para cada 7,7 de seus moradores.
Propagado pelo governo federal como meio eficaz de distribuição de renda, o Bolsa Família ainda está distante de atender somente àqueles que, de fato, necessitam. Dois dos pontos críticos são o sistema de informação que organiza o cadastro único e a fiscalização. Segundo parecer do Tribunal de Contas da União (TCU), que em 2009 bloqueou 317 mil benefícios (18,5 mil no Paraná), o programa tem falhas graves que permitem, por exemplo, a inclusão de pessoas falecidas, políticos eleitos e parentes deles, e pessoas com renda per capita maior que o teto definido para inclusão no Bolsa Família.
Esforço contínuo
Em Doutor Ulysses, município de 6.145 habitantes onde só se chega pelo trecho de terra da PR-092, 836 pessoas estão na lista de recebimento de julho. A maioria dos beneficiários mora em uma das várias comunidades rurais, acessíveis apenas por estradas de terra. Para gerenciar e fiscalizar tudo, a gestora do programa na cidade, Sirlei de Souza Rosa, conta apenas com um veículo Gol e uma funcionária que faz função de entrevistadora e digitadora. ''Quando chove é impossível visitar alguém. A demanda é grande. Vivemos em um esforço contínuo para não cometer injustiça, dando bolsa a quem não precisa, como já aconteceu, ou tirando de quem necessita.''
Na lista de beneficiários de Doutor Ulysses, chama a atenção a quantidade de pessoas com o mesmo sobrenome. Com segundo ou terceiro nome Geliet, o mesmo do vice-prefeito Rozélio Geliet (PMDB), há 29 pessoas. No primeiro contato, Sirlei não soube informar se haveria relação direta entre o político e os beneficiários. Anteontem, precisou que só uma cunhada do vice-prefeito seria beneficiária. No entanto, a pessoa está com o benefício bloqueado porque teria se aposentado por idade.
A FOLHA não conseguiu falar com o vice-prefeito. Ele reside num bairro da zona rural sem telefone e, segundo servidores municipais, não dá expediente na Prefeitura.
'Caixa de denúncias'
Em Altamira do Paraná, 3.799 habitantes, município que, ao lado de Laranjal, proporcionalmente mais fornece bolsas no Estado - um beneficiário em cada sete moradores -, a assistente social Márcia Cristina Guilem, coordenadora do Centro de Referência de Assistência Social (Cras), e David Alexandre dos Santos, o operador do Bolsa Família no município, esforçam-se para não cometer injustiças. Eles fazem uma reunião mensal com todas as famílias que recebem a bolsa e criaram uma ''caixa de denúncias'', onde, anonimamente, qualquer cidadão pode indicar quem recebe bolsa indevidamente. Só no primeiro dia da caixa, 13 denúncias foram recebidas. Mesmo assim, eles admitem que, em meio aos 536 altamirenses beneficiados, há gente recebendo sem necessitar.
''A geografia da região, montanhosa e não propícia às lavouras mecanizadas, o êxodo rural dos últimos anos, a desqualificação da mão de obra e fatores históricos fazem com que tantos necessitem da bolsa no município. Porém, há algumas pessoas que poderiam deixar de recebê-la. O problema é que veem tantos políticos recebendo milhões de forma indevida, tantas falcatruas, que acabam também se achando no direito de receber R$ 60 ou R$ 100 de forma indevida'', ressalta a assistente social Márcia Cristina.
Cruzando dados da lista de beneficiários do Ministério do Desenvolvimento Social, a FOLHA localizou famílias que recebem a bolsa em Altamira do Paraná. Várias delas vivem na área rural, sobrevivendo do pouco dinheiro ganho como diaristas em sítios e fazendas. Entre as que estão na cidade, alguns casos chamam a atenção, como o de Marli Alves de Oliveira. Moradora de uma casa nova, confortável, toda de alvenaria, com piso de cerâmica e garagem espaçosa, ela recebe R$ 44 por mês do benefício federal, R$ 22 para cada um dos filhos na escola. A mulher admite ainda que a família possui um sítio no município, onde costuma passar os fins de semana.
Questionada se não seria possível deixar de receber a bolsa, responde que a renda dela, do marido e dos filhos vem apenas do comércio de leite que produz no sítio e que não é suficiente para todas as contas da casa. ''Com o que recebo compro calçado, material escolar... Não dá para deixar de receber. É uma pena que cortaram parte do que eu recebia. Antes era R$ 102, depois que mudei para esta casa tiraram uma parte'', explica.


