Ninguém mais quer saber, hoje em dia, se comer formigas ou ingeri-las misturadas ao suco faz bem para a vista. A lenda que fez parte do folclore urbano agora deu lugar ao incômodo que estes insetos geram no cotidiano das famílias, picando crianças e arrastando migalhas de comida por onde passam. E quem pensa que a troca da vida no campo pela correria das grandes cidades poderia pelo menos afastar as pessoas deste tipo de problema, se engana: afinal, é bem provável que as formigas já ocupassem estes espaços muito antes de nós.
Os moradores do Conjunto Roseira I, na Zona Sul de Londrina, vivenciam um exemplo claro disso. O bairro, inaugurado pela Companhia de Habitação (Cohab) do Paraná há pouco mais de 20 anos, parece ter sido construído sobre um formigueiro gigante. Combater os insetos faz parte da rotina das famílias.
A dona de casa Isoldina Reginato Tirola já identificou pelo menos duas espécies de formigas que tomam conta da casa junto com o cachorro. ''Tem uma pequenininha, amarela, e outra bem grande, preta. Esta, por sinal, pica bem dolorido'', conta.
Os ''inquilinos'' indesejados obrigam as famílias do Conjunto Roseira a mudar a rotina há dois anos. ''Alimentos só podem ficar na mesa protegidos por uma travessa com água. Pacotes nos armários têm que ficar vedados. E se eu vejo que a comida foi atacada por formigas, eu descarto. Tenho medo de contaminação'', afirma dona Isoldina.
Também dona de casa, Maria José dos Santos já testou várias alternativas para se livrar dos insetos, todas sem sucesso. ''Passo veneno para baratas, fuço no meu jardim para tentar achar os ninhos e até já troquei as plantas para ver se eram elas que atraíam as formigas. Não adiantou nada'', conta, mostrando um vasilhame de plástico com pelo menos cinco litros de formigas mortas, resultado da última incursão por um dos formigueiros do jardim.
Isoldina e Maria José não têm filhos pequenos e, portanto, a preocupação com as formigas resume-se ao ataque que os insetos promovem diariamente aos alimentos. Por outro lado, a também dona de casa Maristela Andreani Netzel, mãe de duas crianças, passa boa parte do dia aplicando pomadas nas pernas dos filhos. ''Eles têm alergia e quando são picados ficam com manchas por até dus semanas'', descreve.
Moradores do Centro da cidade e até de apartamentos também não estão livres da praga. Em um condomínio vertical da Área Central, o estudante Fernando Pinheiro não só tem que lutar contra os insetos, como precisa pensar, todos os dias, em uma explicação para dar aos vizinhos. ''Eles acham que eu não cuido da limpeza da minha casa e por isso eu seria o responsável por atrair as formigas para o prédio. Já fiz de tudo: até passei veneno. Elas dão uma 'folga', mas voltam logo em seguida'', conta.
Para o desamparo de todos os que passam os dias na luta contra as formigas, tanto a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema) quanto a Vigilância Sanitária afirmam não ter muito o que fazer no caso de infestação. ''Recebemos poucas reclamações deste tipo'', afirma o gerente operacional da Sema, Gerson Galdino. ''O último problema foi no ano passado, quando houve uma grande infestação no bosque do Conjunto Cafezal (Zona Sul). Mas no caso de probemas em residências, o que fazemos é orientar as pessoas a procurar uma empresa de dedetização'', resume.
O chefe da Vigiância Sanitária de Londrina, Marcelo Viana, também garante que reclamações deste tipo são raras. ''Já cuidamos de casos como infestações por carrapatos e percevejos, que implicam em danos para a saúde. Mas no caso das formigas, não há riscos e portanto, nossa atuação fica limitada'', explica.

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