Assoreamento inviabiliza a navegação
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de dezembro de 1998
Lúcio Flávio Moura Especial para a Folha 
Depois de perder Sete Quedas - vistoso conjunto de saltos no Rio Paraná submerso em 1982 -, Guaíra (232 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu) começa a sofrer com outra consequência da formação do reservatório de Itaipu: o aparecimento de imensos bancos de areia no leito da cabeceira do lago.
O fenômeno ameaça a navegabilidade da hidrovia Tietê-Paraná, promissor corredor de mercadorias do Mercosul que, no futuro, ligaria São Paulo a Buenos Aires, os dois mais importantes pólos econômicos do bloco.
Visível a olho nu, o assoreamento no centro do lago se estende por uma faixa de dois quilômetros de comprimento entre a nova ponte Ayrton Senna (que liga o estado do Paraná ao Mato Grosso do Sul) e chega próximo ao porto de Salto del Guairá, no Paraguai.
Distante entre um mil e 1,5 mil metros da margem paraguaia, e em torno de três quilômetros da margem brasileira, a faixa de areia, de 300 metros de largura, chega a ficar totalmente exposta em períodos de estiagem. De acordo com barqueiros e pescadores ouvidos pela Folha, são comuns os encalhes no meio do lago.
Não tem como saber onde tem areia. De repente, a gente percebe que a água vai perdendo profundidade e temos parar para escolher outro caminho, disse um pescador que não quis se identificar.
O canal de navegação principal ainda não foi atingido, mas os bancos de areia começam a preocupar a F. Andreis, operadora do serviço de balsa que atende as comunidades de Guaíra e Salto del Guairá. O assoreamento está avançando em direção ao canal que corta o rio em diagonal.
Ponto crítico para o aparecimento do fenômeno, por receber água e acumular sedimento de rios que banham regiões agrícolas, casos de Ivaí e Piquiri, a areia de Guaíra expõe um problema que conta com muitas estatísticas e poucas certezas para ser explicado.
Embora, a hidrelétrica tenha sido construída quando Relatórios de Impacto Ambiental não eram obrigatórios, o governo federal encomendou vários estudos sobre o transporte de sedimentos no leito do Rio Paraná. A maioria considerou o problema pouco importante para a navegabilidade e para a geração de energia.
Estudada em 1972, por Hans Albert Einstein (filho do criador da Teoria da Relatividade) a possibilidade que a sedimentação causasse problemas futuros para o lago foi descartada. Pelos números do alemão, o reservatório, de 29 bilhões de metros cúbicos, receberia, anualmente, 27 milhões de toneladas de sedimento.
Em 1977, um trabalho do Consórcio para Estudo do Meio Ambiente concluiu que a carga de sedimentos depositada anualmente no fundo da represa, chegaria a 12,7 milhões. A própria Itaipu fez uma última estimativa, em 1989. O estudo apontava um número de 23,7 milhões de toneladas lançadas todos os anos nas águas paradas do lago.
Nestas três pesquisas, o assoreamento seria um problema somente daqui a 160 anos, em uma avaliação pessimista e 900 anos, na mais otimista. Estes estudos não trataram da navegabilidade.
Segundo o geólogo gaúcho Sandor Grehs, um quinto do volume do lago já estaria assoreado, com base em fotos de satélite. Neste caso, Itaipu teria somente mais 30 anos de funcionamento garantido.


