ALERTA Assoreamento ameaça lagos em Londrina Ilhotas que antes não existiam começam a tomar conta da paisagem. Ambientalista sugere medidas oficiais e conscientização Mario CesarCENÁRIO DE TRISTEZABarro toma conta de trecho de um dos ribeirões que forma os lagos Igapó 1, 2, 3 e 4: cartão postal ameaçado pelo descaso do homemMário CesarAmbientalista João Batista Souza, da entidade Patrulha das Águas: ‘‘Falo com o coração de quem ama o Igapó’’Mário CesarPescadores que usam o Igapó reclamam: lugar sem vida Osmani Costa De Londrina Os quatros lagos Igapó (na área central de Londrina) e a represa formada dentro do Parque Arthur Thomas (zona sul) pelo Ribeirão Cambé correm o sério risco de desaparecer nos próximos anos, vítimas do rápido assoreamento – sedimentação de areia, terra e outros corpos sólidos no leito – causado pelas sujas águas que neles chegam ininterruptamente trazidas por 29 afluentes e centenas de galerias pluviais. A denúncia, em tom quase desesperado, é feita pelo vice-presidente da associação ambientalista Patrulha das Águas, João Batista Moreira Souza, que há mais de dez anos pratica canoagem nas águas dos lagos. ‘‘É uma tristeza, ver o Igapó agonizando desta forma. Londrina é uma cidade que não tem consciência ecológica. Estamos acabando com os lagos; neste ritmo, eles estão condenados e não vão durar mais muitos anos’’, afirma. De acordo com ele, o assoreamento provocou um levantamento do leito dos lagos, visível a olho nú, em vários pontos. ‘‘É muita terra que vem para aqui todos os dias, trazida pelas enxurradas depois de cada chuva, pelos afluentes – cujas margens não têm mata ciliar – e pelas galerias de águas pluviais’’, comenta João Souza, lembrando que a ocupação urbana em novos bairros e os loteamentos ao longo do Ribeirão Cambé (zona oeste) foram rápidos nos últimos anos. ‘‘É lógico que falta investimento público, cuidado na construção das obras necessárias e atuação séria dos órgãos estatais ligados ao meio ambiente. Mas temos também a falta de consciência da população, que joga todo tipo de lixo sólido nos fundos de vales e margens de córregos’’, critica o diretor da Patrulha das Águas. ‘‘A pessoa está construindo uma casa e deixa aquele monte de terra na rua durante semanas. Cada chuva que cai leva um pouco da terra para as galerias e através delas para os afluentes e lagos.’’ Segundo ele, o Lago Igapó 4 está praticamente morto, tomado pelo assoreamento, lixo e plantas aguáticas em vários pontos. ‘‘Cinco, seis anos atrás, no meio deste lago a profundidade chegava a 3 metros; hoje, não atinge um metro’’, ressalta João Souza, mostrando novas ilhotas que estão sendo formadas pelo assoreamento provocado pela construção de uma ponte no Ribeirão Cambé acima do Igapó 4. Os aterros nos dois lados da ponte – que liga o Jardim Versalhes à Avenida Presidente Castelo Branco – estão sem grama e, apesar de poucos meses da construção, já mostram sinais de erosão provocada pelas chuvas. Num espaço de mais ou menos 100 metros do ribeirão abaixo da ponte, a lâmina d‘água não passa de 40 centímetros de profundidade. João Souza conta que, antes da existência da ponte e consequente assoreamento, a profundidade alí era de aproximadamente 1,5 metro, possibilitando a prática da conoagem. No Igapó 3, surgiu nos últimos cinco anos uma ilhota formada pela sedimentação de terra trazida pelas águas do Córrego Rubi, onde moradores de bairros vizinhos plantaram grama e flores. ‘‘Aqui está sempre cheio de aves. As pessoas que passam elogiam e ela realmente é bonita. Pena que seja produto da degradação ambiental’’, diz o ambientalista. Ele ressalta ainda que o lago 3 só continua existindo porque, há cerca de 8 anos, uma obra da prefeitura levantou em quase um metro a barragem da comporta sob a ponte da Rua Prefeito Faria Lima. ‘‘Se não fosse este artifício, este lago já teria secado quase que completamente, porque seu leito está todo assoreado. É duro ver o lago morrendo, mas é o que vai acontecer se a sociedade e o poder público não tomarem providências urgentes.’’ O ambientalista afirma que a melhor situação é a do Igapó 1, também o maior e mais antigo, formado entre a Avenida Higienópolis e a barragem, ao lado da prefeitura. ‘‘Nele, os pontos de assoreamento ainda são poucos e pequenos. Já a situação do lago 2 é muito crítica. Além do problema causado pelas galerias e afluente Córrego Água Fresca, tivemos aqui muita terra vinda do aterro artificial e das obras da transposição da Avenida Maringá.’’ Durante a semana, os irmãos Ademir e Davi Gabriel insistiam em pescar no meio do Igapó 2, sobre uma tubulação de água da Sanepar. ‘‘Está difícil pescar, porque o lago está todo aterrado. Não tem mais que dois palmos de água de fundura, de lado a lado. É uma judiação, acabaram com o lago com este aterramento’’, diz Davi, pedreiro desempregado que vem da zona norte da cidade buscar no Igapó o peixe para a família. Abaixo da barragem do Igapó 1, dentro do Parque Arthur Thomas – área de preservação ambiental permanente – a represa formada pelo Ribeirão Cambé também encontra-se quase que completamente assoreada. São grandes bancos de areia que já atrapalham os passeios de barcos-pedalinhos pelos visitantes nos finais de semana. Em grande parte da represa, a profundidade da água não passa de dois ou três palmos. O ambientalista João Batista Souza aponta algumas medidas que poderiam diminuir o assoreamento dos lagos, depois de uma urgente dragagem e rebaixamento do leito. Ele defende a canalização de alguns pontos do Ribeirão Cambé, de seus afluentes, e a construção de proteções de concreto em partes das encostas dos lagos. João Souza ressalta ainda a necessidade da construção de pequenas represas – com comportas artificiais – de contenção das águas em cada um dos afluentes do Ribeirão Cambé, na tentativa de segurar logo no início a terra que desce por eles até os lagos centrais. Ele defende também a colocação de telas e grades nas galerias pluviais, para segurar todo tipo de lixo sólido que diariamente chega até o Igapó levado pelas enxurradas. ‘‘Sei que algumas das propostas defendidas por mim não agradarão a ambientalistas de gabinetes, destes que só estudam em laboratórios. Sei também que não dá para segurar o crescimento da cidade e nem evitar algumas obras necessárias. Mas falo com o coração de quem ama o Igapó e com o conhecimento de quem há mais de uma década vive nele todos os dias.’’