Érika Pelegrino
De Londrina
Eles simplesmente não compreendem o mundo onde vivem. Sem capacidade de interpretação e de compreender conceitos abstratos estão vulneráveis e indefesos perante regras sociais. São cerca de 165 mil brasileiros, que não existem pois não estão amparados por leis e nem sequer são citados na Constituição. Em Londrina estima-se que eles somem mais de 200.
Um seminário, que será realizado hoje e amanhã na Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil), tem o objetivo de informar a população sobre a existência do autismo, e preparar pais para detectar a doença e trabalhar para melhorar as suas condições de vida. O evento está sendo realizado através da Associação Londrinense dos Meninos Autistas (Alma).
A assistente social de São Paulo, Eliana Rodrigues Borelli Lopes, que começou a estudar a doença há 10 anos quando descobriu que a filha Natália, na época com 3,5 anos era autista, estará falando sobre o tema no seminário. Ela e o marido acabaram fundando a Associação dos Amigos da Criança Autista (Auma), que hoje atende 25 crianças e pais em São Paulo.
Eliana Lopes irá detalhar as características comportamentais, explicar o que é autismo, causas, como perceber o distúrbio e a recuperação através de uma orientação educacional. A idéia é ensinar pais a trabalhar com autistas e falar sobre as emoções da família diante do problema desde o primeiro momento, quando recebe o diagnóstico.
Ela baseia todo o trabalho desenvolvido na Auma, no Teacch, um programa americano desenvolvido na universidade de Chapel Hill, na Carolina do Norte (EUA). Eliana Lopes aproveitou a ‘‘raiz’’ do programa, a tríade de fundamentos teóricos: estruturação, previsibilidade e agenda visual, e adaptou o Teacch para um programa voltado para a realidade brasileiro.
Perceber os sinais da doença é fundamental para um diagnóstico precoce e o início de um trabalho. ‘‘O autismo não é identificado através de exames mas sim através de uma observação sistemática e criteriosa de comportamento’’, alerta a assistente social.
O autista percebe o mundo através dos olhos. Eles conseguem apreender apenas as informações que podem ser codificadas em imagens. Emoções, sentimentos são incompreensíveis para eles. Aquilo que o cérebro não armazena em forma de imagens, os autistas simplesmente não compreendem.
Estudando a doença para ajudar sua filha, Eliana Lopes definiu o autismo como sendo uma lesão grave profunda sensorial. Todos os sentidos sensoriais estão comprometidos. Ela dá um exemplo de um portador de síndrome de asperger (ver matéria ao lado), Jim Sanclair. ‘‘O estímulo do barulho é decodificado por uma cor. Ele escuta um barulho e vê uma cor. Esta desordem provoca um enorme desconforto interno para o autista e faz com que ele não entenda as regras sociais’’, explica.
Eliana Lopes cita ainda sua filha Natália, para quem correr é vermelho, ou um cheiro identifica uma emoção. Eliana explica que através de uma orientação educacional, quando o autismo não é acompanhado de problemas clínicos que exijam tratamento medicamentoso, é possível melhorar em muito a qualidade de vida deles sempre de acordo com o grau desenvolvido pela doença.
O programa é montado individualmente levando em consideração ‘‘as habilidades, o que o autista faz mais ou menos, o que ele não sabe fazer, como se comunica, se fala, se entende o que ele próprio está falando, se entende o que está ouvindo. ‘‘Sessenta por cento dos autistas não falam’’, afirma.
Os resultados, segundo Eliana Lopes, são muito bons e melhoram a qualidade de vida do autista. ‘‘Ao descobrir o potencial é possível transformá-lo numa atividade profissional ou do dia-a-dia’’.

mockup