Associação de Cambé recebe reconhecimento nacional
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

Cambé - A Associação Refúgio ficou em quarto lugar no Prêmio Itaú-Unicef, na categoria OSC em Ação. Criado em 1995, a premiação tem o objetivo de estimular e dar visibilidade a projetos realizados por organizações da sociedade civil (OSCs) e escolas públicas direcionados ao desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social. A associação foi uma das 30 finalistas selecionadas em 14 estados de todas as regiões do País e a conquista (divulgada no fim de novembro), além de reforçar o caixa da instituição, é o reconhecimento de um trabalho iniciado há 18 anos na garagem de uma casa simples no jardim Ana Rosa, em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), por iniciativa do teólogo e assistente social Marcio de Carvalho.
O ano era 2000. Carvalho, com pouco mais de 20 anos de idade, ainda não era teólogo nem assistente social. Era um morador do jardim Ana Rosa que não se conformava em ver pessoas em situação de degradação social e sentia a necessidade de fazer algo para melhorar a vida delas. Decidiu então acolhê-las em sua residência. Recebia apenas adultos. Eram moradores de rua, usuários de drogas, travestis, prostitutas. E foi a partir da história relatada a ele por uma menina de 14 anos que se prostituía desde os 12 que resolveu mudar o foco da assistência oferecida. "Vi que era preciso cuidar das crianças para evitar que chegassem naquela condição quando adultos", relembrou o presidente-fundador da instituição.
Começou sem orientação especializada e sem recursos, apenas com o que tinha disponível. Em um espaço de cerca de 70 metros quadrados projetado para ser a garagem da residência, instalou uma televisão e nas tardes de sábado promovia sessões de desenhos animados. A iniciativa deu certo e a cada sábado, chegava a reunir 80 crianças. "Decidi então me profissionalizar, fazer um estatuto, criar o CNPJ e abrir uma conta corrente para receber doações sem que o dinheiro passasse por mim", contou Carvalho.
Ingressou na faculdade de teologia na Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina, onde se dedicou aos estudos do ser humano como um todo, o que considera fundamental em sua formação. Elaborou um projeto e, a partir de então, as coisas começaram a acontecer. Recebeu ajuda para o pagamento do aluguel do imóvel onde funciona a entidade, firmou parceria com um professor de taekwondo para que ministrasse oficinas às crianças e, em 2006, aproveitou uma viagem à Malásia, onde participou de um evento para jovens líderes cristãos, para distribuir folhetos com informações sobre o projeto. "As pessoas ficaram impactadas e me chamaram para dar uma palestra. Falei em português, com tradução simultânea, a repercussão foi grande e abriu espaço no Brasil para eu falar sobre o projeto em vários lugares. Foi assim que conheci uma pessoa de Brasília que comprou o imóvel e nos deu esse espaço", comentou. Em 2007, ele também foi contemplado com o Projeto Atitude, do governo do Estado, o que ajudou a angariar mais recursos para a manutenção da entidade e a ampliação dos serviços.

"Hoje é um serviço que atende a população do jardim Ana Rosa dentro da proteção básica. É o único projeto a serviço do bairro que promove o fortalecimento de vínculos, lazer, arte, cultura e esporte. Tem criança que era filho de pedreiro, entrou aqui e hoje é arquiteto", disse Carvalho.
RECURSOS
Ao longo dos anos, novas oficinas foram sendo acrescentadas ao rol de atividades, reformas foram sendo feitas e atualmente o espaço limpo, organizado e bem decorado tem capacidade para atender 264 crianças de seis a 15 anos de idade que frequentam a Associação Refúgio às quartas, quintas e sextas-feiras ou às terças e quintas, sempre no período do contraturno escolar, já que frequentar a escola é exigência para ingressar no projeto. Além das aulas de balé, música, circo, jiu-jitsu, taekwondo e capoeira, elas recebem lanche, contam com uma área para assistirem televisão e jogar videogame e, o principal, recebem incentivos para continuarem estudando e estímulo para construírem sonhos. "Temos crianças que eram terríveis no colégio e que mudaram o comportamento. Fazemos grupos de pais e o avô de uma delas veio nos agradecer porque foi aqui que o neto começou a tratá-lo com respeito", contou Carvalho.

Hoje, a instituição se mantém primordialmente com recursos provenientes do Nota Paraná, que cobre 70% dos custos com o pagamento de água, luz, salários dos 29 funcionários e outras despesas. Mas também há pessoas físicas que são doadores fixos e contribuem por meio de carnês e, neste ano, a associação foi selecionada pela campanha Criança Esperança, organizada pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e a Cultura) em parceria com a Rede Globo, para o repasse de recursos. "Estamos na época de ouro. Não é só o recurso financeiro, mas o reconhecimento pela Unesco e pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) do trabalho feito na instituição", comentou Carvalho.



